Disneyland, mon Vieux Pays Natal: Mostra o Anti-Espectador

por Ursula Rösele



Foi exibido na tarde de ontem no forumdoc BH, o curta-metragem francês Disneyland, mon Vieux Pays Natal, pela mostra denominada “o anti-espectador”. Com imagens capturadas aparentemente em câmera digital amadora, o curta conduz-nos a caminhos diversos à medida que avança em lugares para além da crítica convencional a um assunto determinado e transforma suas imagens e sua narração numa possibilidade de “viagem” interna do tal “anti-espectador” que provavelmente se pega desprevenido nas imersões do diretor.


O narrador ora assume onisciência em relação a algum personagem/funcionário da Eurodisney, ora mergulha em reflexões de tamanha imersão, que torna difícil acompanhá-lo antes que suas questões existenciais e filosóficas mudem de direção. O filme trafega rumo a um raciocínio por vezes melancólico e cético em relação à infância, ao universo da fantasia que – com o advento de um parque temático que dispensa quaisquer tentativas próprias de imaginação – denota um tipo de pureza aparentemente perdido.


A narrativa se desenrola a partir de perguntas oriundas de uma máquina que funciona como uma espécie de oráculo, que se dirige tanto ao narrador quanto ao espectador realizando questionamentos que, assim como as imagens que não necessariamente refletem somente aquilo que é dito, vão além do terreno pergunta-resposta clara e dotada de um sentido facilmente perceptível.

 

Não se sabe ao certo quem é esse narrador. Ele se dirige ao espectador como que o convocando a participar de seu mergulho naquele universo que abriga sua cidade-natal. Poderia ser ele um funcionário, cuja rotina se traduz em fantasiar-se para complementar com sua atuação a representação necessária para tornar aquele um lugar que abriga a magia e evoca nas crianças tudo o que se almeja de sua infância. Poderia ser ele um mero observador que – por morar próximo ao lugar – o visita com freqüência, como também poderia ter um cargo mais alto que o proporciona a possibilidade de conhecer os outros funcionários, o funcionamento interno do parque e aqueles que o visitam.


A Eurodisney representa ali um terreno dúbio, em que o “ideal” de infância entra em uma espécie de embate invisível com a percepção racional daquele que não se atêm de maneira imatura à idéia de magia, beleza e sonhos do lugar. É um local de trabalho como qualquer outro e ainda possui o agravante de representar uma espécie de projeção da infância para pessoas abastadas; que possam ali gastar seu dinheiro com a garantia de não precisarem mais evocar nas crianças uma idéia que seja construída a partir da inocência e simplicidade. Além disso, há (ainda que não totalmente explícito) o posicionamento realista frente à situação de exploração que os funcionários enfrentam.


Fato é que o conhecimento que ele denota possuir de tudo que narra dá a sensação de que sua melancolia em relação ao que aquele ambiente representa em níveis capitalistas (ainda mais por se tratar da filial de um parque de cultura americana em terrenos franceses), burgueses e de total distanciamento com a inocência (apesar de aparentar o extremo oposto), o conduziram a um mergulho inconsciente através de suas imagens e de todos os mistérios que a aparência de felicidade pode guardar ao se observar o outro.


Dessa forma, o documentário parece abarcar essa busca por sentido que se sobrepõe à imagem capturada. Tem-se a impressão de que a construção do filme se deu a partir de sua montagem, uma vez que as idéias se colocam fragmentadas e partindo de princípios filosóficos que estão além de uma simples decupagem. A imersão ali se inicia no inconsciente e convoca o espectador a seu próprio interior, sem a promessa de algum tipo de resposta.


Paralelamente encontra-se a máquina, que realiza perguntas, tem dificuldade de compreender as respostas (que muitas vezes nem sequer são dadas) e – assim como o diretor – não traz nenhuma solução que não o convite a uma reflexão que, ao final da projeção, deixa o desejo de revisão daquela viagem.

 

*Visto no 11º Forum.doc.bh.


Filme Citado:

Disneyland, mon Vieux Pays Natal (idem, 2002/Arnaud dês Pallières)

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