
por Mariana Souto
Feito em 1967, quando Brasília era apenas uma criança de futuro promissor, Joaquim Pedro de Andrade já apontava suas contradições e fazia um prognóstico pessimista de deformação e crescimento defeituoso. Partiu da arquitetura, aspecto marcante, para falar da cidade, da população, das relações entre os habitantes e do Brasil.
Apesar das boas intenções dos criadores, logo nos primeiros anos de idade Brasília já se distanciava da proposta de igualdade da qual partiu. O diretor mostra como há uma grande distância entre um projeto de arquitetura e a vida que o preenche – entre a teoria e o que sucede na prática.
Joaquim Pedro ressalta a arquitetura de Brasília filmando suas construções e monumentos bem de perto e através de alguns ângulos inusitados. Podemos conhecer a textura e os detalhes de edificações que sempre vimos de longe, em imagens já bastante conhecidas mas um tanto quanto afastadas e sem vida.
Mas o que fica mesmo desse documentário crítico é que não há como se prever a vida a partir do espaço feito para delimitá-la, porque esta o extrapola. As contradições históricas brasileiras e a perversa lógica de desigualdade enraizada em nossa sociedade acabam sufocando as tentativas de justiça. A arquitetura define sim muitos aspectos da vivência de seus habitantes, mas alguns costumes são tão fortes que, infelizmente, não há parede que detenha suas manifestações.
*Visto no 11º Forum.doc.bh.
Filme Citado:
Brasília, contradições de uma cidade nova (idem, 1967/ Joaquim Pedro de Andrade)