
por Gabriel Martins
Tanto em O Mestre dos Apipucos como em O Poeta do Castelo há a idéia de desvelar o pessoal em forma de ficção do cotidiano. Tomando, respectivamente, o trabalho de Gilberto Freyre e Manuel Bandeira como ponto de partida, cada um dos curtas registra o autor como protagonista e narrador em ações cotidianas.
O olhar de Joaquim Pedro é o do “planejamento no espontâneo”, contando com uma decupagem certamente trabalhada (O Poeta do Castelo é de uma plasticidade incrível) ao mesmo tempo em que oferece ao espectador a possibilidade da observação da “banalidade” do alheio – principalmente ao se tratar da postura dos protagonistas em seu próprio ambiente, um naturalismo procedente da própria estratégia de recorrer ao particular sem ser um invasor notável.
Não há, portanto, uma interferência direta do conteúdo textual na imagem, sendo que a provocação – ou evocação – literária compõe a cena como elaboração do imaginário. Bandeira, portanto, talvez pense ali em Pasárgada ao se deitar em casa, ou retirar a xícara de seu recipiente específico (síntese do olhar à privacidade que paira nas duas obras). A junção da palavra e a imagem que fala por si só (prazerosa a espontaneidade da risada de Bandeira) resumem na simplicidade deste acompanhamento a beleza natural que há no trabalho de cada um dos autores.
Na impossibilidade de fundir uma estética que traduza a própria vida, Joaquim Pedro a fraciona para um olhar estrutural próprio. Se a idéia parte do ensaiado, este mesmo morre ali, no estratagema do banal. Na poesia ou prosa, ficam eles, Freyre e Bandeira, como pessoas aparentemente comuns que são, neste enorme conforto e elegância estabelecida pelo outro autor, este, por trás das câmeras.
*Visto no 11º Forum.doc.bh.
Filmes Citados:
O Mestre dos Apipucos (idem, 1959/ Joaquim Pedro de Andrade)
O Poeta do Castelo (idem, 1959/ Joaquim Pedro de Andrade)