Cinema Novo: Mostra Joaquim Pedro de Andrade

por Gabriel Martins


É uma obrigação (e praticamente uma inevitabilidade) de qualquer cinéfilo brasileiro cruzar com o Cinema Novo em algum momento da vida. Talvez a entrada mais lógica se dê por Glauber (muitas vezes pela mitificação) ou por Nelson Pereira, com o seminal Vidas Secas. De toda forma, o encontro se desdobra sintomático de um olhar que ainda perdura na contemporaneidade, seja no reprocessamento neo-realismo/nouvelle vague, seja no resguardar da sua essência esteticamente “honesta” que fotografa um Brasil suor - e não maquiagem.


O documentário Cinema Novo, filmado por Joaquim Pedro de Andrade (que já marcava presença no grupo em segmento de Cinco Vezes Favela) para uma televisão alemã, acompanha os bastidores de produções como A Grande Cidade (Cacá Diegues), A Opinião Pública (Arnaldo Jabor), Todas as Mulheres do Mundo (Domingos de Oliveira), Terra em Transe (Glauber Rocha) e Garota de Ipanema (Leon Hirszman), documentando, quase que ausente, a produção das obras (Glauber e Domingos com um pouco mais de destaque). Além do próprio desenvolvimento acompanhado de pré, produção e pós, Joaquim Pedro registra momentos informais do grupo, atendo-se à observação do encontro com fragmentos de falas (Betânia em sua “pausa para o amor”) que traduzem a cumplicidade existente entre pessoas envolvidas em um final de 60 de autêntica produção, quando a ânsia por se reencontrar na imagem do país através do cinema colocava a questão burocrática em segundo plano.


Domingos de Oliveira apresenta seu projeto com jeito malandro, fumando cigarro recostado na cadeira. Diz que se o dinheiro não der, traz o material filmado e arrecada mais. Jabor monta seu filme em moviola - montador manipulando os negativos - com um rosto estampando a incerteza do “será que isso dá certo?”. Glauber manipula desde a sobrancelha de Jardel Filho até um detalhe no cabelo de Paulo Autran, guardando no olhar centrado em um ensaio a confiança detalhista em sua Eldorado. Há alguma coisa especial em ver sentados em uma mesa de bar Domingos, Glauber, Hirszman, Jabor e posteriomente em uma festa Paulo José e Vinícius de Morais, interagindo como bons amigos, sem ainda saber o quanto o produto deste tempo seria de fundamental importância para o cinema nacional. Havia, sim, a confiança (Glauber que o diga), mas constantemente o frio na barriga como no caso de Cacá Diegues, que conta o público em uma das exibições de A Grande Cidade.


A genialidade do documentário de Joaquim Pedro vai além de um mero especial para televisão. Ali, ele além de documentarista é também parte do grupo. Sua câmera está, assim como todos à frente dela, à vontade e espontânea. Faz parte do grupo não só como Joaquim Pedro, mas como a própria câmera na mão emblemática cinema-novista. A cumplicidade com que o diretor se permite criar invade o espectador de hoje que não vê mais a vontade passional de registrar. Caído em um liquidificador, diluído em um mundo em que montagem virou edição, o audiovisual hoje é incensado por uma produção em não-reflexão. Ver, portanto, o Cinema Novo em tela, é “sofrer” de uma nostalgia não-vivida e que de fato se faz impressa no tempo. As idéias, ou ao menos a estética, talvez ainda reverbere; o sentimento, entretanto, permanece a nós imageticamente epidérmico.

 

*Visto no 11º Forum.doc.bh.


Filmes Citados:

Vidas Secas (idem, 1963/ Nelson Pereira dos Santos)

Cinco Vezes Favela (idem, 1963/ Miguel Borges, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues,
Marcos Farias e Leon Hirszman)

A Grande Cidade (idem, 1966/ Carlos Diegues)

A Opinião Pública (idem, 1967/ Arnaldo Jabor)

Todas As Mulheres do Mundo (idem, 1967/ Arnaldo Jabor)

Terra em Transe (idem, 1967/ Glauber Rocha)

Garota de Ipanema (idem, 1967/ Leon Hirszman)

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