
por Leonardo Amaral
Há, em muitos filmes, uma espécie de distanciamento cinematográfico, a câmera é o suporte, capta, registra, sem que, no entanto, haja uma interação entre espectador e imagem. Não é por menos que, na narrativa clássica, o ator nunca olha em direção à câmera, existe um código diegético que não pode e nem deve ser quebrado. A ruptura causa o estranhamento, o olhar em direção à câmera atinge diretamente a quem assiste, nesse exato momento somos também parte de tudo, o cinema passa a compartilhar a ação. Romper com essa barreira acontece com freqüência, desde Godard a Woody Allen e, muito recentemente no cinema pernambucano, em Árido Movie e Baixio das Bestas. Mas em Eich Hifsakti L’fahed V’lamadeti L’ehov et Arik Sharon a experiência ganha contornos quase absurdos no cinema.
Avi Mograbi, de frente para a câmera em um plano fechado, começa dizendo que foi abandonado pela mulher por causa de Ariel Sharon, premier israelense. Mas o que não podemos imaginar é que o real motivo da separação tem resposta em um pathos dele, na sua obsessão doentia. A partir desse e em outros momentos, o diretor/ator/personagem constrói seu filme e compartilha todo o processo diretamente com o espectador – ao mesmo tempo em que ele narra tudo que ocorreu, vemos sua câmera acompanhar os passos de Sharon durante sua campanha para eleição de Binyamin Netanyahu.
O que ocorre são dois processos em construção: o do filme e também da própria concepção de Mograbi. E esses dois se adentram e se confundem, a própria linguagem denota essa fusão. No início do filme Mograbi, que é libanês, se declara de esquerda, sendo inclusive defensor de algumas das causas de seu país, além de ser um pacifista, de se posicionar com antiguerra, enxergando-a como absurda. Mas a medida em que Avi – chamado por Sharon de Avihou, fato que o próprio realizador faz questão de ressaltar – acompanha o dia a dia do chefe de estado de Israel, ele é despertado por uma admiração extraordinária por ele e isso é refletido pela linguagem adotada: se no inicio os enquadramentos eram ao nível a altura de Sharon, a partir de agora passam a ser de baixo para cima, de costas para a câmera e em primeiro plano e de frente para o povo, sempre remetendo a grandiosidade. Em certos aspectos é impossível desvincular a imagens como as de Triunfo da vontade ou Cidadão Kane, o artifício da câmera e o jogo de estilo são peças fundamentais para entender esse endeusamento de figuras históricas – sem entrar no mérito da tirania ou não, nesse aspecto cinematográfico, por ora, isso pouco importa.
Eich Hifsakti L’fahed V’lamadeti L’ehov et Arik Sharon é, acima de tudo, um jogo de cena, sem esconder nada e de exposição em todos os momentos – Avi fala conosco, conta sua história, estabelece uma linguagem em que podemos captar tudo aquilo que se passa com ele. Ele se expõe não somente na narrativa, se mostra no próprio enquadramento, sai do fora de campo para participar de forma ativa, com o boom na mão, para falar com Sharon, para inferir em questões e para caracterizar o próprio fazer cinematográfico. Ao final, dança ao som de uma guitarra tocada por um judeu ortodoxo, paródia a Bob Marley com conteúdo político de direita, em sua catarse que ao mesmo tempo nos parece patética mas que ao mesmo tempo é sincera, de quem queria fazer um documentário sobre Arik Sharon e acaba fazendo um filme sobre si mesmo.
*Visto no 11º Forum.doc.bh.
Filmes Citados:
Eich Hifsakti L’fahed V’lamadeti L’ehov et Arik Sharon (idem, 1997/Avi Mograbi)
Árido Movie (idem, 2006/Lírio Ferreira)
Baixio das Bestas (idem, 2007/Cláudio Assis)
Triunfo da vontade (Triumph des Willens, 1934/Leni Riefenstahl)
Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941/Orson Welles)