Premiação das Mostras Competitivas de Curtas e Vídeos

por João Toledo


Antes da cerimônia de entrega de prêmios, foram exibidos alguns produtos audiovisuais de realizadores juizforanos. Uma interessante demonstração do potencial e crescimento da produção deslocada dos grandes eixos comerciais. Ainda que alguns dos resultados sejam irregulares, há, em cada um deles, curiosas potencialidades. Mas todos os problemas se tornam pequenos demais diante da beleza avassaladora do curta Ilha, de Marcos Pimentel. Um documento poético extremamente pessoal, extraído de memórias e construído também de esquecimento – de lembranças e sensações lavadas pelas ondas que cercam o passado. Também vale destacar o interessante A Demolição, adaptado da obra de Luiz Ruffato e dirigido pelo coordenador geral do festival Primeiro Plano, Aleques Eiterer. Apesar de uma busca pela retratação poética do passado um tanto desencontrada, com imagens de pouco potencial emotivo fora dos diálogos, o filme aos poucos parece ir se descobrindo nas imagens mais simples, em silêncios mais significativos, para chegar ao bonito desfecho, onde as convicções do personagem são desconstruídas enfim.

Em seguida, foram exibidos os vencedores do ano anterior nas categorias Melhor Diretor (Memória Sem Visão) e Melhor Filme (Memórias Sentimentais de Um Editor de Passos). O primeiro, um documentário sobre a transformação do centro de São Paulo pelo Minhocão, busca os espaços, mostra carcaças de apartamentos outrora luxuosos. As declarações, sempre em off, são como vozes sem temporalidade, vagando entre o passado glorioso e o presente decadente, ecoando nos espaços serenos, sempre em choque com o exterior deturpado e conflituoso. O filme todo é um atestado do potencial cinematográfico pouco explorado na esfera documental.


Já o vencedor da categoria de melhor filme do ano passado demonstra características absolutamente distintas às do curta citado anteriormente. Isso apenas reafirma a pluralidade o evento (tanto em termos de curadoria e programação, quanto de premiação), que busca compreender a riqueza que há na diversidade. É um evento que estimula e incentiva a diferença, sem assumir um perfil específico e previsível. Mas voltando ao filme; o roteiro muito bem construído nos conduz pelas memórias sentimentais do tal editor de passos, fazendo-nos transitar por personagens muito interessantes, cheios de pequenas bizarrices. Ao mesmo tempo em que a voz onipresente do personagem nega sua vocação, a imagem e o som demonstram uma certa obsessão pelos passos, e isso cria uma atmosfera de dúvida muito interessante. Apesar de não haver ali nada tão inventivo ou rico na esfera da forma, há um trabalho muito detalhista e sempre coerente; é um filme que nunca se perde na trajetória, caminha claramente para a resolução do conflito, com bons diálogos, cenas muito inspiradas e sem nunca perder o ritmo. Ao final, sua vizinha e namorada tira o salto alto; seus passos agora são silenciosos e ele já não mais os precisa editar. Essa cena conclui de maneira interessante o caráter metalingüístico do filme, como se o próprio personagem editasse os passos do curta. Ambos os curtas Memória sem Visão e Memória Sentimental de um Editor de Passos foram abordados em críticas escritas para a cobertura da Mostra de Tiradentes.


Apesar da injustificável troca de pessoas para a entrega dos prêmios, algo que nada acrescentou em termos de valor, a cerimônia correu bem. O júri pareceu genuíno e sóbrio em suas escolhas, mesmo que tenha parecido se preocupar em distribuir bem os prêmios, não os deixando concentrar nas mãos de um só realizador – algo que pareceu ainda mais claro diante da lista de menções. Um esforço justificável diante da proposta do festival de incentivo aos iniciantes. Porém, existem coisas injustificáveis no festival, como os prêmios do “Juri Popular – Internet”, coisa que obviamente abre vias de distorção e perde completamente a relevância dentro de um festival de cinema, ou o prêmio intitulado “Melhor Primeiro Plano”, cujo objetivo é nada mais que acrescentar à cerimônia mais um prêmio, ou seja, mais uma oportunidade de premiar aqueles que ficariam de fora. A pluralidade é bem legal, mas não vale se perder nessa tentativa de abarcar tudo, afinal, é importante não perder de vista que sem qualidade de nada vale tanto incentivo. Essas categorias, além de sujarem a programação, diluem a importância dos outros prêmios, perdidos entre tanta coisa. Focar pode ser bem mais interessante agora que o festival já se estabeleceu, em sua 6ª edição. Talvez esteja até na hora de pensar em uma mostra competitiva de longas; algo que certamente atrairia mais realizadores.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.


Para mais informações sobre o Primeiro Plano 2007 (e para visitar a lista de vencedores do festival), visitem: http://www.luzesdacidade.art.br/index.php


Filmes Citados:

Ilha (Isla, 2004-2006/Marcos Pimentel)

A Demolição (Idem, 2007/Aleques Eiterer)

Memória Sem Visão (Idem, 2005/Marco Vale)

Memórias Sentimentais de Um Editor de Passos (Idem, 2006/Daniel Turini)

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