
por João Toledo
O longa metragem argentino Vísperas (em português, vésperas) possui algumas das características recorrentes do cinema argentino contemporâneo. Ele trata da angustia, solidão e incomunicabilidade na zona familiar. Tudo sem muito correr atrás de explicações sociológicas e psicológicas, sem recorrer a recursos de descobertas pessoais e grandes superações – paradigma ainda não superado no cinema brasileiro. O tom soturno expresso pela fotografia que, mesmo durante o dia busca as sombras e os ambientes secos de elementos, sem muitas cores e formas, dá ao filme um caráter denso que harmoniza bem com a lentidão da narrativa, que se arrasta sem grandes transformações ou arcos emocionais.
Mas, para além de achar o filme cansativo pela exploração intensa de seu caráter depressivo, há algo mal construído que, ao final, revela-se como a principal fragilidade do longa. Narrativamente, o filme nos leva a acompanhar em paralelo a vida de duas irmãs em seu dia-a-dia. Alternamos durante toda a projeção entre a irmã solitária, recém-separada, que espera pelo resultado de uma biopsia e a irmã animada, agitada e bem-humorada, que se exercita como uma dançarina de axé. A primeira guarda os segredos como guarda a sua dor, escondidos no silêncio de sua individualidade. Não divide com ninguém suas angústias. A segunda, expansiva ao extremo, mantém uma relação de amizade com a filha e com o estranho cunhado, e uma relação desgastada com a mãe, a quem ela ignora sempre que possível. Assim caminha o filme, por entre os pequenos acontecimentos individuais e coletivos dessas mulheres, com um olhar feminino predominante e até bem trabalhado.
No entanto, ao fim, apenas uma das histórias se fecha de forma satisfatória. Somente uma conclui a jornada que acompanhamos, deixando esquecidas algumas histórias e seus desenlaces, algumas personagens e os caminhos por elas seguidos. Tantas outras pontas soltas, tantas personagens largadas, sem conclusão. Fica visível o amadorismo do roteiro, que se pretende apoiar na lógica do cinema argentino, mas que parece não compreender que a construção simples vai muito além da aglomeração de eventos simples. A simplicidade é também muito complexa. Não é que o final seja ruim: Imageticamente, ele é muito bem construído; A sucessão dos planos finais leva a crer que a irmã solitária descobre sua doença. Mas porque então trabalhar o filme inteiro com o paralelismo entre as irmãs e esquecer disso no fim? Impossível abstrair. O que há de positivo no filme se perde por completo naquilo que há de ruim, na sua incapacidade de concluir as histórias que ele próprio propõe.
*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.
Filme Citado:
Vísperas (Idem, 2006/Daniela Goggi)