
por João Toledo
“Para João, esta novela que foi ao cinema e voltou pra casa (que é a literatura)”. Na dedicatória do livro “O Invasor”, Marçal Aquino se expressa sobre o pertencimento daquela sua história à literatura, lugar onde ela surgiu e para onde retornou mais tarde. É muito comum que, no processo de adaptação, pegue-se a história emprestada, como se para fazer um adendo ao livro, algo complementar, e nada mais.
Mutum subverte essa lógica; ele dialoga com Guimarães Rosa, sabe extrair dele aquilo que é cinematográfico, sabe se deixar influenciar pelo ambiente que abriga a história, assim como o fazia o grande autor. É um filme que se permite a transformação, que mostra respeito pelo cânone justamente por ser leviano, por corromper e desordenar tudo, de acordo com o que se impunha à realização. Nesse sentido, Miguilim nunca retornará à literatura, pois nunca saiu de lá; o menino agora é Thiago, e fez do cinema sua nova casa.
É realmente impressionante o universo de sutilezas que se constrói. O filme é inteiro em tom diminuto, com poucas vozes, gritos, ruídos, nenhum excesso dramático, nenhuma trilha musical. É um filme que parece frio ao começo, mas que envolve e enlaça o espectador pelo detalhe, pelo gesto, por tudo aquilo que se constrói nos arredores da história em si e que está justamente na imagem. É uma narrativa de poucas falas, poucos sons, pouca movimentação de cena, pouca movimentação de câmera, poucos planos, poucas cores, poucos personagens, poucos espaços, pouca vida.
Tudo é tão singelo que o que há de belo, e que parece tão forte em termos de sensação, ao mesmo tempo parece frágil diante da morbidez inóspita daquele lugar – tudo é instável, transitório. Essa singeleza representa o olhar do menino para aquele ambiente que, apesar de tudo, ainda possui seu lirismo – o sopro na teia de aranha, a surpresa por trás das lentes do óculos, o enterro simbólico, o periquito, todos expressam a beleza daquele espaço, uma beleza que está dentro do menino, e da forma como ele observa as coisas. O singelo aqui não quer dizer simples ou simplório, pois é justamente da minimização dos excessos que afloram as potencialidades da imagem que diz por si só. A exploração da narrativa se faz a partir da observação do espaço, como se a câmera representasse o olhar do menino, dando ao filme a leveza daquele olhar inocente e mostrando que a beleza de tudo está na forma como enxergamos nosso mundo.
*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.
Filme Citado:
Mutum (Idem, 2007/Sandra Kogut)