Vídeos: Mostra Competitiva - Programa 3

por João Toledo


Não guardo segredos quanto ao meu grande interesse pelo cinema contemporâneo, por esse cinema do agora, que se pensa e se constrói enquanto também eu estou a pensá-lo. Portanto, justo por essa avidez e otimismo que tenho como ponto de partida, sinto-me muito feliz por estar cercado de cinema por todos os lados neste festival que privilegia os cineastas de primeira viagem. E é também devido a essa busca cinéfila que me percebo, a todo momento, querendo ser dois ou três, pois, sendo um só não posso acompanhar toda a programação da forma como gostaria – e da forma que ela merece. Infelizmente, a grade se montou de forma que fica impossível assistir a mais de um longa por dia. Escapa-me, pois, por entre as irrecuperáveis horas juizforanas, muita coisa interessante.


Mas deixemos de lado os choramingos. Na sessão de vídeos do dia 8 (parte da programação destinada somente à produção da zona da mata, como forma de incentivá-la e alimentá-la), percebi algo de curioso que merece uma avaliação detalhada, que muitas vezes é deixada de lado em função do amadorismo das produções. Acreditava eu que os filmes seriam precários principalmente em termos de produção, qualidade da imagem, enquadramentos, movimentação de câmera, e que haveria, talvez, uma busca mais radical e pessoal no âmbito narrativo, aproximando do cinema a vivência do dia-a-dia dessas pessoas. Foi engraçado perceber o quão errado eu estava.


É claro que há o deslize técnico habitual, além da presença de filmes que refletem o despreparo cinematográfico de seus realizadores, mas, no geral, a impressão que se tinha era de haver um preparo técnico de qualidade, uma busca pela expressão imagética que, estranhamente, neste contexto, parecia vir antes e ser mais urgente que a própria expressão narrativa. Isso inequivocamente desequilibra os filmes, já que não possuem muita harmonia entre o que se pretende contar e o que diz a imagem. Algo que parece ser sintomático de uma sociedade envolta num sem-número de imagens sufocantes; do homem urbano cosmopolita, já sem muitas referências do seu próprio universo; de uma sociedade colonizada culturalmente. O que se via na sessão era um reflexo da constatação de que a imagem, no nosso meio, chega antes, bate primeiro. Imagem virou sinônimo de identidade; daí o esmero.


E, na contramão da qualidade técnica, uma total precariedade na construção narrativa se expunha entre os muitos erros. Dentro os mais recorrentes, o uso de uma narração em off. sempre descritiva e redundante; a presença incisiva e despropositada dos flashbacks, quebrando o ritmo que se tentava construir; diálogos explicativos e mal escritos; falta de equilíbrio narrativo; falta de ritmo de cena; didatismo constante nos elementos de montagem, como o fade demonstrando passagem de tempo; excesso de explicação em detrimento do reconhecimento das possibilidades de síntese imagética. Dá-se muita importância à imagem, mas não se percebe a riqueza que o uso dela permite, em termos de significação.



O Canaviá


No primeiro dos vídeos, O Canaviá, é clara a tentativa de resgatar um pouco da cultura africana, expressa através da música; mas a expressividade sonora é infinitamente superior, já que a lógica videoclíptica adotada tem origem noutra cultura muito distinta e não consegue se adequar, com sua construção vertiginosa e fragmentada, àquilo que propõe representar.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.



Nem Tão Felizes Para Sempre


Nem Tão Felizes Para Sempre, segundo vídeo, é o mais deslocado e pobre da sessão. Parece mais uma brincadeira entre amigos que realmente uma busca pela expressão cinematográfica. Há quebras de eixo de câmera, descontinuidade de fotografia, atuações estapafúrdias, e estereotipadas, além de uma construção que se faz apenas como forma de justificar as piadas que se pretende contar; os personagens não possuem motivação, existem simplesmente para relatar a verdade sobre suas vidas, representadas em flashbacks demonstrativos e redundantes. No final das contas, por mais amador que seja, o que o filme pretende é desconstruir os finais felizes de contos de fada e demonstrar a impossibilidade dessa premissa, ridicularizando as personagens sem nenhum pudor. Esqueceram-se que nos contos de fada tudo é possível, assim como no cinema. Impossível mesmo é agüentar, daqui do mundo real, esse discurso simplista com suposto caráter de crítica.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.


Segunda Atitude


Segunda Atitude, apesar de mais bem construído, representado e, principalmente, filmado, parece se erguer sobretudo a partir da lógica maniqueísta dos blockbusters americanos. É um melodrama de ação de excessos constantes, que constrói personagens americanizados e muito pouco verossímeis dentro do contexto do filme. As constantes situações-limite cansam e impossibilitam a construção de um crescente dramático que reforce o clímax. Além disso, a pegada cômica que se adota em alguns momentos acaba por tirar a dramaticidade das cenas mais fortes. O excesso de diálogo também cria um problema na medida que, além de nos informar o que já sabemos, arrasta as cenas por longos tempos dificultando o ritmo da montagem.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.



Quartelada

O documentário Quartelada, em sua busca nobre por retratar o golpe militar de 64 através do olhar de figuras importante de Juiz de Fora, infelizmente não faz mais que juntar os relatos e compor a narrativa com imagens que ilustrem esses mesmos relatos. Sua abordagem quase jornalística parece ter origem na televisão, antes do cinema. Além disso, o uso incisivo da música também soa um pouco como manipulação emocional, sempre em contraste com depoimentos controlados, clínicos e pouco emocionados, salvo alguns poucos momentos.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.



Tentação e Le Pendu


Já os dois vídeos ainda não comentados merecem uma avaliação diferenciada; não pela qualidade (ou falta de), mas pela pesquisa que os sustenta. Tanto Tentação quanto Le Pendu são vídeos de um grupo chamado “Os Vanguardistas”, cujo objetivo é pesquisar vanguardas cinematográficas e artísticas para, em seguida, fazer um filme dentro da lógica e das regras estabelecidas por essa vanguarda. Revezando-se entre funções, os membros do grupo buscam também aprimorar a técnica e, por conseqüência, a expressividade audiovisual.

Apesar da curiosa proposta – no bom sentido – as produções padecem do mesmo mal citado anteriormente. Há uma busca focada principalmente na reprodução da atmosfera audiovisual das vanguardas, que parece não perceber o contexto na qual ela se originava. Ao invés de buscarem retrabalhar os conceitos dos movimentos de maneira a atualizá-los e adequá-los às realidades particulares do realizador, no contexto atual, eles se atém à cópia, que nada de novo acrescenta ao cinema. De toda maneira, o simples fato de haver um grupo que pesquisa vanguardas a ponto de tentar compreender seus mecanismos, já é bastante positivo. Por enquanto, estão ainda lá atrás, no Expressionismo Alemão – só espero que não precisem chegar ao Cinema Novo para sacar que movimento e contexto são inseparáveis, e que o rótulo é sempre mais prejudicial que positivo.

 

*Visto no 6º Festival Primeiro Plano.

 

Filmes Citados:

O Canaviá (Idem, 2006/Lara Lemos, Leonardo Campos, Lindóia Brito)

Nem tão Felizes Para Sempre (Idem, 2007/Gláucia Almeida, Maristela Meireles)

Tentação (Idem, 2007/Thalita Cruz Bastos)

Segunda Atitude (Idem, 2007/Lucas Mendonça)

Le Pendu (Idem, 2007/Pedro Nogueira, Matheus Novaes)

Quartelada (Idem, 2006/Rachel Rocha Gonçalves)

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