
por Ursula Rösele
Há um naturalismo em Andarilho que, ao analisá-lo como última obra exibida em Ouro Preto numa mostra na qual o cinema dos anos 50 (extremamente ligado ao neo-realismo italiano) e o contemporâneo (tendo como recorrência até nos títulos a questão de um caminho sendo traçado indefinidamente – O Caminho do Homem, Descaminhos, Trecho) são seus temas principais, pode-se fazer algumas considerações no que diz respeito ao cinema como arte, como proposta estética, como limite indefinível do retrato do real/fictício.
Em determinado momento do longa Santiago, de João Moreira Salles, o diretor discorre acerca da disposição de alguns objetos enquadrados pela câmera. Questiona se há naturalidade ali, se os objetos filmados lá estavam ou se aquilo é o produto de uma escolha refletida para representar uma possível realidade. Em Andarilho, Cao Guimarães consegue obter em cada plano do filme não só uma beleza plástica notável, como a impressão de realidade simples, de retratação fiel da beleza que ele encontrou exatamente como estava lá.
Esta é uma discussão que mereceria mais tempo, pois reflete questões do cinema que têm muitos significados principalmente na abordagem de forma, conteúdo e imagem. Andarilho surpreende não só pela ‘narrativa’, como pela estética apurada. Cada plano parece ter sido degustado devagar, à medida que o diretor encontrava o momento perfeito de ligar a câmera. Além disso, o que fica implícito na narrativa mostra o potencial do silêncio no cinema, daquilo que é dito sem o uso necessário de palavras.
Apesar do título no singular (que dá a idéia do que é ser andarilho e não de retratar somente um deles em especial), a câmera observa três andarilhos que caminham solitários, seja na floresta, na estrada, ou no que parece ser uma rodoviária. Já em sua seqüência inicial, um dos personagens passa vários minutos falando coisas com e sem sentido, como que em explosão de dentro para fora de um silêncio que pode ou não ter sido opcional em sua vida, mas que sugere um universo transbordando a cada palavra, a cada gesto, a cada olhar. A câmera observa de perto seus olhos, seus cabelos sujos, como se nós o observássemos enquanto fala, mas ali não há um tipo de intervenção que interfere no que está sendo dito, mas uma permissão delicada que parece apenas querer ouvir o que ele tem a dizer.
Característica próxima de seu longo anterior, Acidente, em Andarilho Cao Guimarães também se utiliza de uma câmera que observa silenciosa (interrompida em poucos momentos por pigarros de alguém de fora - que parece ser da equipe - ou pelo próprio olhar do personagem que busca cumplicidade naquele que o observa), captando aos poucos a intervenção que parece vir de fora. Em Acidente, como o próprio nome diz, as imagens parecem ter surgido de maneira acidental, como uma espécie de obra da sorte. Como se o diretor desse vida ao seu filme e a manifestação dos objetos coordenasse a ordem narrativa.
Parte de sua autodenominada “trilogia do silêncio”, já composta por Alma do Osso, Andarilho se divide entre o relato livre e descompromissado, as palavras de impossível compreensão ditas quase em sussurro e as imagens que ‘falam’. Não há como iludir-se da possibilidade de compreender o outro em sua completude, ainda mais quando sua complexidade nos incita a divagar sobre um sem-número de questões. O personagem “falante” de Andarilho demonstra uma espécie de percepção do mundo que varia constantemente entre a lógica e o devaneio. Sua solidão está no silêncio e seu desespero está na palavra.
Em contrapartida, um dos ‘andarilhos’ balbucia várias coisas de difícil compreensão. E o terceiro é silencioso, exibe uma frase de Jesus enorme em seu ‘carrinho’ e se deixa filmar em uma rotina aparentemente casual para depois encontrar o andarilho “falante” - num momento que pode trazer novamente dúvidas se aquilo se deu naturalmente ou foi proposital - e observá-lo como nós espectadores o fizemos e inclusive questionar sua sanidade numa tranqüilidade sem julgamentos.
Infelizmente a cópia exibida em Ouro Preto estava com legendas em inglês e, como foi analisado por alguns dos críticos que lá estavam ao final da projeção, Andarilho ‘é’ dois filmes. Um que nós vimos onde o que é dito está na maioria das vezes na legenda (o que faz com que, mesmo tentando, não consigamos deixar de lê-las) e provavelmente outro filme com a ausência dela. Novamente em Santiago, há certa despreocupação em nos fazer compreender o quê o mordomo Santiago diz num “portunhol” confuso. Em Andarilho há a correlação em alguns momentos com o que é dito e o que é mostrado, em momento-chave maior (que sugere novamente um ‘acaso’ surpreendente) quando o personagem fala do conflito entre a existência de espíritos que dificultam a plenitude de Deus e um longo barulho de trovão invade a tela assustando-o, para depois vir a fala complementar “cala a boca!” do personagem para Deus. Fica o desejo de assisti-lo sem legendas para tentar encontrar-se com os personagens no saudável desencontro que a não compreensão pode causar.
O uso da câmera que observa possibilita uma apreensão totalmente subjetiva do filme, ainda que exposta à seqüência escolhida pelos seus criadores. Em determinado momento, vemos a escuridão sendo iluminada apenas por eventuais faróis dos carros e caminhões que passam na estrada. Há a sensação de pertencer de certa forma à realidade dos andarilhos que convivem diariamente com a ausência de luz, o silêncio, a rotina. O filme, então, parece passear entre a contemplação (quando vemos os andarilhos ‘sendo’), a intervenção para retratação do real (nas imagens) e a participação (em momentos como o supracitado).
É uma obra notável que possibilita o olhar para o outro, a percepção imagética em belíssimo apuro visual, a inserção num universo que nos é distante e diminui à possibilidade de fruir do filme. Bela escolha para finalizar uma mostra cuja preocupação maior é a de preservar nosso acervo histórico cinematográfico. Inicia-se com a exibição em vídeo da obra-prima Rio 40 Graus, que muitos não conheciam e muitos outros puderam rever em tela grande, mas infelizmente não existem cópias em película (para exibição) de um filme deste porte para exibição e importância histórica e cinematográfica. E termina em um deleite visual realizado em digital, de um diretor que já se encontra em seu quinto longa-metragem sem ter exibido nenhum de seus filmes em circuito nacional. Definitivamente algo a se pensar.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
Rio 40 Graus (idem, 1955/Nelson Pereira dos Santos)
Andarilho (idem, 2006/Cao Guimarães)
Acidente (idem, 2006/Cao Guimarães e Pablo Lobato)
Santiago (idem, 2006/João Moreira Salles)
Descaminhos (idem, 2007/Marília Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, João Flores, Maria de Fátima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud)
O Caminho do Homem (idem, 2007/Chico de Paula)
Trecho (idem, 2006/Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina)