O Caminho do Homem e Descaminhos

por Ursula Rösele


Em seminário ocorrido no último dia da Mostra, cinco cineastas contemporâneos de Minas Gerais conversaram (dentre outros assuntos) sobre as críticas apressadas de seus filmes, a tendência atual de colocá-los numa ‘caixinha’, insinuando que são todos fruto de uma mesma essência, de uma história e estética que se repetem. Como já havia sido dito por Cléber Eduardo (crítico e curador da mostra), a escolha dos filmes exibidos em Ouro Preto mostrava a semelhança de títulos (Trecho, O Caminho do Homem, Descaminhos, Andarilho), que contribuíam para uma reflexão aprofundada do cinema contemporâneo e principalmente de características que assemelham o pensamento atual para o tema principal da Mostra: o cinema brasileiro dos anos 50 (ligado ao neo-realismo italiano).


Em O Caminho do Homem, ao viajar por diversas cidades de Minas Gerais em uma busca pelo folclore, pela cultura local e as interpretações dos moradores com relação à história do lugar; Chico de Paula realizou um documentário onde se pode perceber certa influência (não necessariamente proposital) com Acidente de Cao Guimarães, assim como em Descaminhos, um documentário realizado por oito diretores resultando em seis curtas-metragens que revisitaram locais onde já houve (e ainda há algumas) ferrovias que cruzavam quatro estados.


A semelhança entre os filmes mineiros não se dá de forma a dizer respeito a uma história e/ou estética repetitiva; esta afirmação é simplista e muito redutora no que se refere à interpretação de uma tendência atual do cinema mineiro (presente em diversos filmes de outros estados, diga-se de passagem). Pode-se notar muitas diferenças em cada abordagem, tanto na forma quanto no conteúdo narrativo. E certamente, a semelhança de abordagens entre os filmes possibilita a ligação a um problema atual, no que diz respeito aos problemas sérios de conservação que se encontram os filmes clássicos nacionais e no acervo já perdido ao longo dos anos. Nos filmes há a tentativa de manutenção histórica de diferentes culturas, características regionais, que pode ser de certa forma conectada (ainda mais de acordo com o tema da Mostra de Ouro Preto e as reflexões teóricas propostas) de maneira metafórica com a atual situação do cinema nacional.

Em O Caminho do Homem há uma espécie de saudosismo em relação ao passado, ao que ele representou e ainda representa para os habitantes de cada cidade visitada. Não existe tristeza, mas uma ânsia do diretor em retratar cada detalhe da história daquelas cidades como que em uma busca pela sua história não se perder com o tempo. Já em Descaminhos existe melancolia, pois há ali a percepção através de diversos olhares de uma realidade que inexiste nos dias atuais ou encontra-se cada dia a caminho de um ostracismo inevitável. Como se houvesse nos filmes da Mostra um diálogo com o aparente ‘fim’ de grande parte do nosso acervo cinematográfico (que se perdeu ao longo dos anos) e a tentativa de resgate de um passado que muito corrobora com os ideais de preservação do cinema nacional.


Saindo do território mineiro, Baixio das Bestas de Cláudio Assis é - nas palavras do fotógrafo Walter Carvalho - um filme sobre o cinema. Em cena emblemática de um estupro em que a câmera se desvia do ato para registrá-lo em sombras na parede conseguidas através da luz de um projetor (o estupro ocorre em uma sala de cinema abandonada), Assis homenageia o cinema com um relato contundente de uma realidade onde não parece haver nenhum tipo de possibilidade redentora nem para o cinema, nem para os personagens que se encontram ‘ilhados’ naquele lugar. Ou seja, se há uma recorrência de abordagens de certa forma melancólicas em relação ao lugar do cinema no Brasil, fica claro que não se restringe somente a um tipo repetitivo de “fórmula” ocorrido em Minas Gerais. Não é à toa que todos os filmes citados aqui estavam reunidos em uma mesma Mostra de cinema.


O Caminho do Homem apresenta a visão de um diretor e equipe que imergiram naquela realidade de forma intensa; a ponto de não terem aparentemente mais controle sobre os caminhos que o filme tomaria. Há um excesso na abordagem no que se refere não somente ao tempo do documentário (que poderia certamente ter 40 minutos a menos), mas nos relatos em demasia, que se perdem na tentativa de encontro de similaridades no discurso dos personagens em locais diferentes. Existe uma necessidade latente de percepção do lugar não em seu registro puramente imagético (como ocorre em Acidente e Descaminhos – em parte), mas através da fala dos entrevistados. Em O Caminho do Homem o lugar se transformou naquilo que se diz dele e não em resultado do estudo de algum registro escrito, que, se há, não foi buscado pela equipe de filmagem.


Não há muita sutileza na narrativa de O Caminho do Homem, que sai de alguns cortes secos de paisagens que evocam a idéia do estático fotográfico para partir para seqüências lentas, o que torna o ritmo do longa descompassado. Ao longo do filme, aparentemente à medida que a equipe mais vai se inserindo na realidade dos lugares que relata, a sensação é de iniciar-se uma despreocupação em manter o tom inicial, pois o boom aparece em alguns momentos e integrantes da equipe passam a participar de danças e situações em grupo com os habitantes locais. Seria uma estratégia muito interessante se não se perdesse num tipo de ‘ode’ aos lugares e personagens que levou a um fascínio por relatos que, se reduzidos, poderiam ser muito mais instigantes àqueles que assistem e não fizeram parte do processo de adentrar naquela realidade.


No princípio, o documentário parece querer seguir para depoimentos sobre o ciclo do ouro e sua relação com as cidades adjacentes a Ouro Preto, mas em determinado momento, saem disso para relatos pessoais, religiosos e folclóricos das outras cidades. Ipoema, Milho Verde, Lavras Novas, Jabuticatubas, Itabirito, Morro do Pilar, dentre outros, são lugares que se parecem em diversos aspectos. Seus personagens contam casos muitas vezes semelhantes, seja de sua vida pessoal, seja em relação à história de sua cidade. Acaba que a intenção documental vira um registro subjetivo de personagens e lugares que encantaram o diretor, tornando-se enfadonho para aqueles que não compartilham de seu carinho e conhecimento pelo objeto referido.

Em O Caminho do Homem os personagens falam de passado todo o tempo, mas como parece haver muita proximidade com o mesmo - como em momentos em que eles dizem preservar costumes de seus antepassados – as recordações são ditas de maneira divertida e descompromissada, diferente da melancolia presente em Descaminhos, por exemplo. Esses lugares estão à parte das grandes cidades, pois neles existe a preocupação em manter as raízes locais, passando de pai para filho. O Caminho do Homem poderia ser um filme interessante sobre costumes, sobre lugares perdidos no tempo que mantém tradições, mas se excede no tempo e nos relatos de maneira a transformar-se num documento pessoal para o diretor guardar de lembrança.


Descaminhos. No título, a palavra que sugere idéia contrária à do termo primitivo ‘caminhar’. É a percepção do fragmento, o caminho defendido na Mostra visto de forma contrária (pois o caminho traçado se refere a um caminho que muitas vezes não existente mais), em representação melancólica daquilo que foi um dia ou encontra-se em estado decadente, sem a expressividade possuída no passado. Oito diretores se reuniram para rodar seis curtas-metragens sobre ferrovias de Minas Gerais que atravessam ou atravessaram os estados do Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo.


A semelhança de abordagem nominal de cidades mineiras evoca Acidente, mas sua comparação com o filme não vai muito além deste fato. A idéia é de filmes complementares, cuja essência pode ser parecida, mas reproduz um pensamento de preocupação e elogio ao passado muito mais forte que a crítica repetitiva de que os filmes são os mesmos e que, logo, escolhendo-se um, representa-se todos. Descaminhos vai ao sentido contrário, pois sua contemplação é saudosista, talvez até um pouco pessimista. Enquanto O Caminho do Homem dá idéia de preenchimento, em enquadramentos fechados onde as pessoas ocupam cada espaço com seus relatos calorosos, Descaminhos é vazio, solidão, planos abertos que constatam o fim ou seu prenúncio.


Com um início de grande lirismo, o filme segue o trilho do trem de dentro dele enquanto um poema é recitado ao som de ponteiros de relógio que parecem pontuar o pouco tempo que resta. Inicia de dentro para fora. À medida que muda de um curta para o outro, os planos estão cada vez mais distantes do interior dos trens. Há um estilo de documentário experimental, entrecortado por algumas tentativas de diálogo, quando alguns personagens se manifestam mostrando lugares ou falando dos trens, mas o contraste entre o silêncio e os relatos para o conjunto do filme dão uma sensação bucólica de constatação, onde a palavra disputa com o silêncio daquele que parece ter comprovado o fim inevitável das ferrovias.


Enquanto em alguns dos filmes o diretor (ou diretores) parece querer encontrar esperança em mudar a situação, no curta que mostra a cidade de Belo Horizonte, a concisão no simbolismo diz mais que qualquer depoimento poderia. Apenas uma porta se fechando, em uma cidade onde a urbanização tomou conta de qualquer possibilidade de manter um transporte via linha férrea, ainda que a possua. É um filme que faz o caminho aparentemente inevitável do campo para a cidade, num contorno que vai de escolhas estéticas (inclusive um dos curtas, de Maria de Fátima Augusto recheado de fast fowards) a narrativas, que à medida que chega ao fim, o intervalo entre os cortes diminui e o ritmo acelerado parece se esquecer do bucolismo de seu início.

 

*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.


Filmes Citados:

Acidente (idem, 2006/Pablo Lobato e Cao Guimarães)

Andarilho (idem, 2006/Cao Guimarães)

Trecho (idem, 2006/Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina)

Baixio das Bestas (idem, 2006/Cláudio Assis)

O Caminho do Homem (idem, 2007/Chico de Paula)

Descaminhos (idem, 2007/Marília Rocha, Luiz Felipe Fernandes, Alexandre Baxter, João Flores, Maria de Fátima Augusto, Leandro HBL, Armando Mendz e Cristiano Abud)

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