
Tori
por Rafael Ciccarini
Tori é um filme de encenação calma, contemplativa e singela. A história se passa no contexto de uma família oriental, em São Paulo, algumas décadas atrás. O filme lida com muita sutileza com a idéia das diferenças culturais ao construir com delicadeza o contraste entre o mundo ‘dentro’ da casa da protagonista e o mundo externo, onde ela deve conviver e ao mesmo tempo lidar com a ausência do irmão, a qual precisa de alguma forma entender e aceitar.
O diálogo natural e inevitável é com o cinema de Yasujiro Ozu, que como ninguém sabia observar a beleza da rotina oriental e dela extrair uma espécie de poesia da contemplação, um elogio da espera, que emana um profundo respeito pelo mundo, pela ordem e ritmo natural das coisas. Aqui, essa forma de olhar ajuda-nos a perceber o encanto contido no processo de uma criança vivendo e descobrindo o mundo a seu ritmo.
A menina, ao ter que lidar com a falta do irmão, acaba encontrando uma forma de vivenciar essa saudade, essa dúvida, esse não-compreender através da relação simbólica com a figura do passarinho que pertencia a ele. Em meio a isso temos pontuado seu cotidiano em sua escola e a relação com sua mãe, um personagem igualmente bem construído, sobretudo em seus silêncios. Um filme também sobre a aceitação, cujo desfecho, sutilíssimo, apenas confirma o quão bem resolvida é a relação entre conceito e realização dessa obra.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Jonas e a Baleia
por Rafael Ciccarini
Jonas e a Baleia, curta de Felipe Bragança, logo em seus primeiro momentos se mostra como um desafio pelas ricas articulações nele engendradas, que se relacionam de maneira nem sempre desvendável sobretudo num primeiro e apressado contato. Temos ali ao mesmo tempo uma história de amor, comentário social e uma espécie de observação meticulosa via encenação e composição de enquadramento de como há, na contemporaneidade, uma imbricação de fatores e lógicas que torna a compreensão da realidade como um todo quase que uma impossibilidade.
Temos um diálogo entre o ‘ter’, o ‘sentir’, o ‘fazer’ e o ‘estar em’ em meio a um contexto muitas vezes opressor e contraditório. O personagem, durante um assalto, comete um assassinato. Noutro lugar, se apaixona. Ainda numa terceira instância, tem com sua motocicleta uma relação que passeia entre o sentimento e o fetiche. Ele é preso. A moça espera. Ninguém reage ou questiona. As coisas simplesmente acontecem: Bragança tem a todo tempo as rédeas do discurso, não seus personagens.
As seqüências em animação não se dão a um entendimento direto. Parecem ali estar mais em função de uma vontade de quebra, anti-catártico, que de pontuação dramática. No terceiro ato, digamos, o rapaz está de volta para passar o que o filme diz serem dois dias de liberdade. Eles jantam em silêncio. Ele volta-se então para sua moto e a acaricia. Não há articulação dramatúrgica que nos permita saber o que de fato sentem esses personagens: é como se a dramática não se mostrasse suficiente (ou relevante) para o que o diretor quer construir a partir da relação dos personagens e do espaço físico e social que os cerca.
Depois de toda essa articulação o personagem é, ao fim, um resultado da impossibilidade de sair ileso do encontro entre seus condicionantes instintivos, materiais e sociais? Um filme que, ainda que em sua frieza calculada e nem sempre agradável, a ser visto e revisto.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Bolo de Morango
por João Toledo
Em um interior nordestino qualquer, conhecemos uma família humilde, que mais parece uma fábrica de mulheres à espera de oportunidades melhores. No jantar, a mãe Maria e as filhas Mariedna, Marielva, Mariema, Maricleuza, Marideusa e Marinete lêem a carta de Marisleuza; mais uma das meninas terá a chance de se tornar uma doméstica na suposta capital brasileira da oportunidade. Será de quem a vez? Mariedna embarca para São Paulo, mas desembarca em outro planeta. O universo caótico e o horizonte recheado de formas, cores, pessoas e sons não dá espaço para o olhar da moça; o excesso ali se impõe enquanto ausência.
Logo que conhece sua patroa, Dona Silvia, a pobre alienígena é resumida no próprio nome. Agora ela é Edna, empregada doméstica, e faz um tour apressado pela casa. Do início ao fim, a menina é diminuída ao rótulo da profissão ingrata e é tratada como se fosse apenas aquilo e nada mais; como se houvesse nascido doméstica e, portanto, não humana. Ao ficar sozinha na casa, Mariedna percebe que em seu manual prático de instruções não há nada além de deveres. Em meio à opulenta variedade de restos de comida da festa de aniversário do dia anterior, e sem saber ao certo o que lhe é direito, a menina, perdida em meio a tanta bagunça, encontra um lindo bolo de morango com chantilly na geladeira. Decide ligar e tirar suas dúvidas alimentícias com a doméstica que lhe apresentou à patroa. Esta lhe diz para comer um ovo frito e nada mais.
Perdida no apartamento apertado e oprimida pelo ritmo frenético daquele lugar que não abriga o mínimo tempo de transição, Edna devora aos poucos o bolo, enquanto o ambiente lhe devora com sua imponência caótica de excessos. O roteiro, apesar de bem humorado e recheado de diálogos cômicos, trata o assunto com carinho. Cheio de metáforas visuais, o filme se desenvolve quase inteiramente a partir da relação da menina com o espaço, trazendo força e credibilidade à personagem, que, no final, deixa de ser Elza, Edna, Diminuída; ela volta para casa, para o feijão da mãe, volta a ser Mariedna.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Pugile
por Ursula Rösele
Na última sessão de curtas, denominada “Fixação e Deslocamento”, todos os filmes exibidos apresentaram muito afino visual, planos cuidadosamente planejados e a predominância do silêncio. Em Pugile, nos pequenos instantes em que a câmera capta a rotina de uma família composta pela mãe já idosa, o filho que trabalhava num espetáculo de telecatch (lutas livres coreografadas) e o irmão, portador da síndrome de down (em interpretação impressionante); pode-se perceber a sutileza de planos que parecem trafegar sobre o não-dito de maneira a deixar subentendida certa angústia solitária que impressiona.
O título, em imperativo, conduz a uma atitude que contrasta com a rotina ‘estática’ e calada dos personagens, mas condiz com o conceito do telecatch. Os irmãos parecem não se dar muito bem e o encontro entre eles se dá somente nos momentos da luta em que o mais velho trabalha, funcionando como um tipo de ‘alívio’ onírico de uma violência interna daquele que sufoca os sentimentos não somente na doença, como na dificuldade de convívio com o outro. Paradoxalmente, esta violência se dá em um terreno onde há a encenação de uma luta e não a efetuação da violência propriamente dita (caso dos telecatchs).
Quando a mãe tem um problema de saúde e fica internada, o que em tese seria o ponto de virada do filme torna-se uma espécie de continuação de um estado já estabelecido. Não há nenhum tipo de redenção ou momento-chave. O filme passeia por aquelas pessoas, mas não concluiu ou interfere em seu caminho natural.
Apesar da sobriedade, há muita doçura em Pugile. Há, aliás, esta sutileza recalcada em todos os filmes da sessão. O carinho está presente de uma maneira simbólica e não literal, além do universo urbano fazer parte da narrativa. O autismo do irmão mais novo é retratado tanto pelo silêncio e apatia com o mundo ao redor, como em instantes poéticos de uma câmera alta que o observa tirar um pássaro do caminho, o carinho dos amigos do telecatch que aparecem fantasiados na porta do hospital (inclusive a presença de Lourenço Mutarelli, autor do livro “O Cheiro do Ralo”), a atitude de defesa do irmão frente a um marginal que os confronta com uma frase que diz algo como “o quê você quer de mim?”.
É um filme que não parece ‘querer algo de nós’, além de compartilharmos a observação de uma câmera que procura não intervir na narrativa, evocando no espectador uma reflexão subjetiva para além do lugar, na interpretação de um silêncio que geralmente diz mais que o uso de palavras.
*A crítica de Joyce pode ser encontrada na sessão de curtas do nosso site.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
Tori (idem, 2006/Andréa Midori Simão e Quelany Vicente)
Bolo de Morango (idem, 2006/Julia Jordão)
Jonas e a Baleia (idem, 2006/Felipe Bragança)
Pugile (idem, 2007/Danilo Solferini)