Curtas - Série 2 – Estéticas e Identidades Mineiras

por João Toledo



Bárbara

Minha relação com o curta-metragem, eu poderia dizer, é próxima da minha relação com a poesia; é preciso tempo para encontrar o tempo das respirações, para encontrar o ritmo da narrativa e com ele acompanhar o desenvolvimento da história, caminhando com segurança ao seu lado, é preciso uma reprise (ou várias) para que os detalhes ganhem relevância e os personagens se solidifiquem nas minúcias despercebidas das primeiras visitas. Talvez seja este o caso de Bárbara, filme de Carlos Gradim, inspirado no conto "E a situação, como é que está?", de Edmundo de Novaes Gomes. Reconheci sua beleza e complexidade, e fiquei com receio de cometer uma injustiça com uma obra tão cuidadosa.


Percebe-se que aquilo ali é uma cena de sexo; os sons a evocam, mas a imagem desfocada remete à confusão do personagem, à incerteza de se estabelecer por completo, e nos deixa perdidos no centro de uma ação ainda sem rosto ou personalidade. As imagens, que não seguem um padrão lógico ou linear, se mostram e ilustram, como lembranças, a narração do personagem, que parece brotar de um turbilhão de pensamentos acerca daquele dia. Bárbara, um homem alto, magro, de olhar intenso, veste sua calcinha no quarto de um hotel. Um homem mais velho veste suas calças; mais tarde entenderemos que aquilo pode ser uma forma inconsciente de vingança. Numa visita sua ao pai, talvez a única e última, desvendam-se os rancores de uma relação triste e distante, cujas mágoas acumuladas o tempo não pode dissolver. Incomunicável, graças à sua doença terminal, resta ao pai o olhar colérico, que acompanha o filho, ou filha, durante toda a visita.


Durante todo o filme, exala do personagem uma segurança plena quanto às suas decisões, quanto ao seu corpo, quanto à sua personalidade; por outro lado, o universo a rodear Bárbara é sempre frio e não a acolhe em sua diferença. Também em seu mundo particular, na intimidade do quarto de hotel, está sempre presente alguma interferência: o vermelho aconchegante que a abriga é sempre contraposto a luzes frias vindas da janela ou de outros ambientes, o que denota algo mal resolvido. Esse aspecto do personagem – que colocado na sua boca soaria no mínimo simplista, além de diminuir sua complexidade – é resolvido com uma fotografia primorosa que trabalha cada plano detalhadamente, sempre em sincronia com a direção de arte. Ela explora bem as situações de penumbra, iluminando apenas o foco da ação dramática e induzindo nosso olhar para os detalhes (fumaça do cigarro, vermelho dos olhos do pai etc.).


A direção segura não só constrói apenas belos planos que se entrelaçam numa narrativa fluida, mas também é coerente em sua fragmentação, retratando pensamentos e lembranças sem nunca se deixar perder em confusão imagética. O trabalho de Carlos Gradim – rapaz oriundo do teatro – se destaca também no lido com o ator. Ele parece conhecer bem as especificidades do cinema, trabalhando a expressividade de seus atores, muitas vezes em planos fechados, sem nunca tornar caricato o personagem travestido.

Ao final, Bárbara assiste a uma cena da janela do hospital. Ela observa aquilo com um carinho pesaroso, e, talvez, com um pouco de inveja. O amigo do pai, com quem conversara durante sua visita, se despede da filha, funcionária do hospital, com um beijo na testa. Em uma rima visual ao avesso, Bárbara limpa a testa suada do pai, por onde exala sua vontade de esbravejar seu ódio inútil; o pouco que lhe resta. Bárbara não sente mais medo do pai, nem vergonha. Ali, ela encontra superação.

 

*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.



A Chuva nos Telhados Antigos


Rafael Conde, um dos mais proeminentes e premiados cineastas mineiros, dá seqüência ao seu ofício de contar histórias, de envolvê-las em imagens envolventes, e de se aproximar intimamente dos seres que as envolvem, com mais uma adaptação do também mineiro Luiz Vilela.


O filme se ambienta em um passado retrô, de onde ecoa um romantismo nostálgico de um tempo em que se sonhava ir a Paris e viver de sonhos. Um pintor consagrado reencontra seu grande amor do passado. Não nos são revelados os planos desmanchados que eles fizeram juntos, não nos é mostrado o fim do relacionamento; nada disso importa. O que interessa aqui é o momento do reencontro, a dança sutil de palavras, comumente negadas pelos gestos dos personagens. No início, a difícil aproximação. Os diálogos vão sondando o outro aos poucos, redescobrindo aquela pessoa do sofá à frente e tudo o que nela mudou. Uma interferência na narrativa se sobrepõe ao reencontro; imagens de um filme em super-8 da época em que eles estavam juntos. Isso de alguma forma representa o olhar nostálgico e as boas lembranças daquele amor desbotado. À medida que os dois se buscam, a vontade de uma aproximação se torna física; eles agora dividem os mesmos enquadramentos, se unem em uma sombra na parede. No encontro, é isso que os une: apenas uma sombra de tudo o que viveram. A chuva – metáfora clara –, vista do lado de fora da janela, lhes escorre o rosto como lágrimas. Apesar de haver ainda atração, carinho, e um doce licor, aquele amor é irreconciliável, ficou no passado, virou filme em super-8. A vontade de recordar aquele sabor do passado é nítida, mas eles resistem. Às vezes as coisas acabam, mesmo sem se acabar totalmente. “O trem parte daqui a pouco” - ele diz. Mesmo depois da despedida, ele ainda se agarra à esperança de revê-la, sem nunca se desvencilhar do passado insuperável. Ele sai, entram os trilhos de um trem.


O filme, em tese, termina ali, com aqueles trilhos representando o fim do encontro. Entretanto, durante a apresentação de créditos, assistimos àquele mesmo encontro, só que às avessas. Presenciamos a entrega despudorada de ambos àquela paixão; vemos a concretização explicitada de tudo aquilo que já havia se mostrado claro no plano do desejo. Se esta cena é apenas a representação explícita dos pensamentos e sonhos dos dois, ela enfraquece o filme, pois desconstrói a sutileza traçada do início ao primeiro final. Suponho que o problema esteja, talvez, na qualidade do trabalho de Rafael até o momento da cisão.


A expressividade dos diálogos é tamanha e a direção tão leve e fluida em sua rica construção simbólica naquele primeiro momento do filme, que não resta dúvidas quanto às vontades contidas do casal; conhecemos aqueles personagens e desvendamos (ou nos são desvendados) todos os seus desejos íntimos. Naquele primeiro final, nos despedimos, junto com eles, do amor que já não volta mais. É tão fácil perceber (e até mesmo sentir) o desejo reprimido dos ex-namorados, que o que ocorre depois dos créditos não passa de uma chuva sobreposta à outra. É como uma explicação de algo que já entendemos, um banho súbito de uma chuva que já nos vinha molhando desde o começo do filme.

 

*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.



Era Uma Vez…

Uma fada faz sinal para o ônibus com sua vara de condão e entramos no terreno soturno da fábula em desconstrução. A menina, que só queria mesmo um beijo “bem bom” de um príncipe encantado, volta para casa decepcionada, arrasada. Nem o Mickey Mouse lhe deu bola. Do fundo do ônibus, se aproxima o anti-galã; um homem mais velho, com a barba por fazer e um jeito meio canastrão de falar – algo que, em contraponto com a atuação naturalista da menina, é coerente com aquele personagem, que, na condição de assaltante, cria um personagem para si. Ele é a forma decadente transformada em Mumm-Ra, expressão plena do Id. Ele assenta no banco seguinte ao da moça e os dois começam a conversar.


A direção, tarefa dividia entre três pessoas, opta pela simplicidade, por focar na ação dramática daqueles personagens do ônibus: alguns planos longos de diálogos e muitos planos próximos compõem a história. Em alguns momentos, falta uma construção cinematográfica mais detalhada no âmbito da imagem, que consiga aliviar o roteiro e os atores de toda a construção narrativa. A mesma riqueza do texto não se apresenta imageticamente, o que deixa a mise-en-scène um pouco pobre, mas nunca desinteressante.


Logo no começo, a carência da menina faz com que ela aceite a transgressão do homem e, de certa forma, o incentive a continuar com toda aquela ladainha elogiosa. Aos poucos, a menina agridoce vai conquistando o velhote, cujo papel com ela oscila entre uma relação de namoro, de amizade e uma relação entre pai e filha. Por fim, ele se torna o príncipe que salva a mocinha do perigo. Como recompensa, ganha sua bolsa, e ela, um beijo carinhoso na testa. O beijo “bem bom” não é exatamente aquele esperado, mas é melhor: é o beijo acolhedor e verdadeiro de que ela precisava. Entre lágrimas e sorrisos, a menina continua ali, sozinha, sem dinheiro, mas ainda lhe resta a dignidade e o respeito que não lhe foram tomados. Talvez esta não seja a noite sonhada, saída de um conto de fadas, mas é uma noite real, onde mesmo as coisas boas trazem coisas ruins, onde nada é gratuito nem acontece como o esperado, onde a violência e o lirismo se cruzam e onde a realidade e a fábula são uma coisa só.

 

*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.


Filmes Citados:

Bárbara (idem, 2006/Carlos Gradim)

A Chuva nos Telhados Antigos (idem, 2006/Rafael Conde)

Era uma vez... (idem, 2006/Gisele Werneck, Guilherme Reis e Byron O´Neill)


*Os curtas da sessão que não constam aqui podem ser encontrados na sessão de curtas do nosso site.

Leia novidades instantâneas em nossoblog.