Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda

por Rafael Ciccarini


Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda surgiu de um convite da própria Bethânia a Andrucha Waddington para que o cineasta registrasse seu show “Por Dentro do Rio do Mar” e que fizesse um filme em comemoração aos seus 60 anos. Andrucha aceitou o convite e, até em função das condições objetivas (o convite foi feito dias antes do show e da comemoração), resolveu fazer um documentário que seguisse os passos de Bethânia nesses dias, como que se deixando guiar por ela própria em sua intimidade e universo.


Enquanto proposta não deixa de ser interessante: um documentário que, sob a condução de um diretor talentoso, fosse encontrando seu próprio discurso, sua própria significação visual e articulação narrativa em seu próprio processo de feitura, que fugisse dos esquemas tradicionais da homenagem “pergunta/resposta- retrospectiva-depoimentos-imagens de arquivos” e achasse sua verdade e expressividade no processo de se observar e registrar seu objeto em sua pressuposta grandeza implícita.


Mas talvez esteja aí seu principal problema: há demasiada confiança, tanto no artifício quanto no objeto. Do lado de Maria Bethânia, produtora, a certeza de que compartilhar sua intimidade, sua epifania religiosa, a cantoria na varanda da casa da sua mãe (a emblemática Dona Canô), em companhia do irmão Caetano Veloso é algo de tal forma importante que bastasse alguém com algum talento, que ‘soubesse’ fazer o registro, que teríamos um grande filme. O que, aliás, é natural, sobretudo aos artistas baianos, em geral extremamente autoconfiantes e mestres da auto-propaganda (o que aqui é dito como elogio).


A questão é que Andrucha parece ter resumido sua atuação nesse pressuposto: tamanha sua confiança na grandeza e importância de Bethânia e talvez em sua própria expressividade como diretor, concebe uma mise-en-scène que se quer intimista (sobretudo pela câmera na mão), que assume o improviso (o boom aparece em vários momentos, por exemplo), e que se limita a fazer intervenções dramáticas óbvias (como aproximar-se do personagem que chora), como se somente a partir disso fosse, a qualquer momento e sem nenhum esforço, nascer um filme belo, impactante e profundamente relevante.


Ocorre que isso simplesmente não acontece. O que vemos, é um longo registro de Bethânia, Caetano e Dona Canô contando vários clássicos da música regionalista brasileira, o que até se configura como interessante do ponto de vista musical, mas pouco ou nada diz enquanto articulação cinematográfica mais ampla. Se não há como deixar de notar, por exemplo, a beleza extrema do arranjo improvisado de “Tristeza do Jeca”, em duas vozes e violão de 12 cordas (se me recordo bem) é também impossível não constatar a monotonia do discurso visual que lhe dá vida.


Vá lá: talvez, Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda, possa funcionar como especial para a TV (a duração exata de 60 minutos nos faz supor que essa idéia possa ter vindo da concepção original), mas se tomarmos enquanto uma obra que se reivindica cinematográfica – ainda mais sendo exibida numa Mostra que nos ofereceu petardos diversos como Cão Sem Dono, Baixio das Bestas e Andarilho - acaba se mostrando absolutamente tediosa e inofensiva.


No fim, vemos Maria Bethânia visitando um circo e confessando seu amor nostálgico por aquele universo, numa espécie de retorno simbólico ao lugar de onde ela veio e, quem sabe, aonde tenha surgido a fagulha que a fez querer sair dali de Santo Amaro para se tornar cantora e artista. Uma escolha tanto compreensível quanto óbvia, que rima sentimentalmente com o início, onde a vemos, consagradíssima, cantando num show abarrotado. Bethânia canta ali “Eu sou a luz das estrelas/Eu sou a luz do luar”. Pode até ser, mas temos a partir do filme de Andrucha apenas espectro dessa luz.

 

*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.


Filmes Citados:

Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda (idem, 2006/Andrucha Waddington)

Cão sem Dono (idem, 2006/Beto Brant e Renato Ciasca)

Baixio das Bestas (idem, 2006/Cláudio Assis)

Andarilho (idem, 2006/Cao Guimarães)

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