
por Ursula Rösele
Crisálidas
Crisálidas é o segundo curta exibido na sessão “Variações sobre o infanto-juvenil”, que, juntamente com 12 Anos, apresentou um discurso (ainda que de maneira experimental) diferenciado da questão infantil no que se refere a uma retratação que remete à doçura; à inocência pura e simples. Mesclando a animação com live action, o curta faz felizes intervenções que contribuem para uma idéia melancólica da perda da infância, do processo complexo de se distanciar do ‘diálogo’ lírico com o mundo. Nos planos do balanço vazio, da janela vazia, da casa soturna com doses de onírico, de uma espécie de ‘pesadelo do real’ - onde a constatação de uma solidão quase que inevitável perturbam o colorido da infância (o filme é em preto e branco) - as inserções de animação surgem de maneira sufocante, como se fossem uma falha no vídeo que intervém de maneira cúmplice àquele conflito.
Maria sem Graça
O curta foi baseado em um conto de Marcelino Freire intitulado “Nossa Rainha”, no qual uma menina moradora da favela sonha em ser a apresentadora Xuxa Meneghel. A disparidade da vida singela, pobre, cheia de restrições e os conflitos da mãe que se angustia por não conseguir compreender a insistência da filha e a angústia por saber-se incapaz de satisfazê-la; foram retratadas de maneira a insinuar o universo pop a la discurso MTV com cortes rápidos, enquadramentos tortos e um visual brega que incita o cômico. As interações da tia da garota com a câmera soam mais como uma tentativa desesperada de fazer rir em tempos de Tapa na Pantera, do que uma reflexão pensada de como inseri-la na narrativa de maneira a fortalecer o discurso angustiante de uma garota com conflitos de identidade, inserida num universo hostil de pobreza e incapacidade de sonhar que se vê compelida a ceder à perda da infância. Infelizmente, o resultado é um curta fraco, que denota uma necessidade latente de “fazer cinema” sem compreender a amplitude de uma decisão como esta.
Nossa Paixão
Com poucas exceções, a ânsia da sessão de vídeos sobre as ‘variações do infanto-juvenil’ parece ser a fase angustiante de transição e descoberta de identidade que uma criança vive ao perceber-se às vias de um crescimento que sugere a compreensão de um mundo para o qual ela não se sente preparada. Em Nossa Paixão há a urgência da angústia pela escolha sexual em pouco mais de cinco minutos de vídeo que retratam um instante entre duas garotas, que estão imersas no universo do melodrama ao assistirem uma novela e escutarem a briga de um casal que aparentemente faz parte da família de uma delas. Ao encenarem a referida discussão logo após o ‘calor’ da cena da novela que acabaram de assistir, as duas repetem as frases em momentos de risadas sutis que buscam a tranqüilidade de aceitar-se como são e beijam-se. Ali fica retratado de maneira escapista uma enorme tensão sexual, por terem escolhido o melodrama e a encenação para aliviarem-se do desejo latente de entregarem-se à paixão homossexual que as une.
por João Toledo
O Gritador
Em O Gritador, o amadorismo de seus realizadores não se atem apenas aos aspectos técnicos do filme. Narrativamente precário, ele passeia entre seqüências enfadonhas, pautadas por atuações caricaturais e enquadramentos televisivos. O vídeo, que fica perdido entre o infantil de sua fábula e o juvenil de seus protagonistas, acaba, ao final, se revelando uma obra sobre jovens que ainda não cresceram. A imaturidade dos personagens parece se refletir na própria produção, que expressa muito mais uma vontade de constituir-se em obra visual – facilitada pelo fácil acesso ao mesmo – que algo vindo de uma efetiva elaboração – qualquer que seja ela.
12 Anos
12 anos. Vagaroso e quieto, um filme contemplativo que observa uma criança enquanto ela olha para o mundo. No preto e branco que perpassa a projeção, nada se destaca, o que reflete a construção da personalidade da criança, ainda perdida na busca por sua identidade. Nada é óbvio; a câmera não tira dúvidas; pelo contrário, ela faz ecoar nos quadros a dualidade do protagonista, cujo sexo sequer fica claro. Estamos no universo da dúvida e da transição entre uma infância que já parece remota e uma adolescência que ainda parece distante. Tentamos penetrar em um universo que pouco se comunica com o mundo externo. Palavras não são trocadas; trocam-se olhares tímidos de quem ainda não conseguiu abandonar o seio materno. No fim, continua-se o caminho, a construção; o que termina é apenas o filme.
O Sapo
O filme parte de um clichê – um clichê-verdade, que apesar de pueril, é de fácil identificação. Era uma vez um menino que entra na peça de teatro da escola para conquistar a mais linda das ‘coleguinhas’. A historinha bobinha é bem erigida e se constrói através de cenas sensíveis e bons diálogos. Em alguns pontos, a narração excessivamente eloqüente do menino desloca o espectador para fora do filme. No entanto, a boa atuação do menino-sapo, que se agarra ao texto maduro com propriedade, resgata o espectador, salvando o filme dessa quebra. No final, como não podia deixar de ser, a moral da história: até mesmo o sapo, quando se menos espera, pode dar grandes saltos. O salto, no caso, é a revelação do príncipe que há no sapo, logo no momento de sua morte, em contraste com a frieza da princesa que o manda matar. A metáfora é sutil e passeia com leveza pelo filme que, apesar da aparente despretensão, se mostra belo e contagiante.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
O Gritador (idem, 2007/Ulisses Costa e Carlos Porto)
Crisálidas (idem, 2006/Fernando Mendes)
Maria sem graça (idem, 2007/Leandro Godinho)
12 Anos (idem, 2007/Marília Nogueira)
O sapo (idem, 2006/Adolfo Sarkis)
Nossa Paixão (idem, 2006/Leandro Duarte e Rui Calvo)