Cidade Dual

por Ursula Rösele


A idéia de dualidade político-social em dois locais totalmente díspares da cidade (e condomínio próximo) de Belo Horizonte no longa Cidade Dual de Leo Ayres, deixa algumas questões levantadas no seu decorrer que apontam em direção a uma forma de estruturação documental que sugere uma imersão relativista e de certa forma ingênua de sua realidade, ainda que com instigantes caminhos visuais e narrativos.


O condomínio fechado Alphaville, assim como (tomando-se as devidas proporções) a favela retratada apresentam-se a partir de reflexões intuitivas e que se pretendem (sobretudo pelo diretor) ao mesmo tempo sociológicas e pessoais de suas “personagens” em torno de uma vida que rumou para o isolamento do urbano, seja por escolha ou impossibilidade dela. Traçando um caminho (aliás, os filmes da mostra parecem de certa forma representar sempre um trecho, um caminho sendo percorrido de forma não terminada) que fatalmente leva à favela, Ayres desenvolve uma espécie de ‘narrativa própria’ (ou muito pessoal) ao conduzir o documentário rumo ao que parece ser uma tentativa de perceber a estrutura social da cidade como um lugar onde há espaço para a redenção, onde os ricos são figuras inexpressivas e incapazes de perceber o lugar ao qual pertencem e os pobres ali têm uma consciência superior ao observar sua realidade com mais apuro. Percepção interessante em alguns pontos, mas que denota uma incapacidade do filme de caminhar rumo a uma reflexão madura referente à complexidade que o tema sugere.

O condomínio traria a idéia ‘errônea’ de uma cidade independente da urbanidade que busca novas (e até “batidas”) formas de sobrevivência que inevitavelmente sugerem a hipocrisia de seus habitantes em torno de uma negação da realidade e opção pela fuga que remetem de alguma forma ao longa A Vila de M. Night Shyamalan (claro que ainda dentro das devidas proporções). A princípio, Ayres indagou um dos moradores sobre sua preocupação em tratar e ‘adotar’ animais de rua, animais doentes, etc. De suas análises do ambiente do condomínio e das pessoas que moram ali, o filme se desvia daquela pessoa, para seguir em direção a um ‘universo paralelo’ onde mulheres rezam cantando músicas religiosas num videokê, crianças estão fadadas a um futuro ainda mais incapaz do convívio social e pessoas julgam a “alta sociedade” como o mais próximo de atingir a perfeição no que se refere ao distanciamento do lugar onde aparentemente “não há mais esperança”. E a mesma parece surgir justamente dos menos favorecidos, quando somos apresentados à favela e seus moradores.


A escolha pela exibição do longa na mostra está em consonância com algumas questões levantadas no cinema dos anos 50 e sua proximidade aos ideais do neo-realismo italiano e uma tendência do cinema contemporâneo a aproximar-se de uma visão crítica do real em suas diversas dimensões. Seja no longa de abertura Rio 40 Graus, no filme urbano Cão sem Dono, nos curtas-metragens de tema, por exemplo, “Afetos e efeitos urbanos”, dentre muitos outros, há a exploração dessa abordagem do efeito que a vida urbana e os problemas sociais causam nas pessoas no mundo contemporâneo.


Há uma interessante opção estética no retrato do condomínio Alphaville, na escolha por planos que simbolizam o vazio, que mostram os interiores das casas de maneira a desfigurar a idéia do belo, do luxuoso, de superioridade de um ambiente que se pretende capaz de definir os caminhos corretos da ‘civilização’; ainda que distante da mesma e em atitude hipócrita de se julgarem capazes de reconstruir uma estrutura social que se desvincule dos ‘desvios’ humanistas e relacionais que uma cidade desencadeia.


O ‘ponto de virada’ do documentário traz um silêncio trabalhado de maneira muito interessante quando uma doméstica que trabalha no condomínio pega o ônibus (ou melhor, os ônibus) e faz um longo caminho até sua casa, com planos expressivos que sugerem a melancolia do tempo, distância, cansaço, olhar perdido e principalmente para aqueles que conhecem melhor a cidade, a identificação com os locais percorridos e a mudança de ambiente à medida que ela volta à “civilização” e acaba por entrar em um lugar que segundo ela é o “condomínio dos pobres”. Neste ponto, existe algo questionável nesta passagem de ambientes. Parte-se do princípio que num documentário as intervenções do diretor devem ser mínimas, apesar da inevitável subjetividade sempre aparecer. Em Cidade Dual, os entrevistados parecem corresponder exatamente às intenções do discurso pretendido pelas perguntas e pela forma como a montagem foi feita. No caso da doméstica, ela ‘disserta’ acerca do condomínio, da relação aproximada que ela estabelece entre o Alphaville e a favela, tendo como ponto principal o isolamento que ambos os locais possuem da cidade, mas com um discurso pueril que não problematiza as questões fundamentais de ambos os lugares e principalmente do crescente número de condomínios construídos em grandes cidades atualmente e o que eles representam.

 

Em um momento específico que gerou uma sensação dúbia com relação à intenção pretendida pela seqüência, uma das moradoras fala por um longo período sobre sua rotina, o fato da velhice atrapalhá-la de continuar seu trabalho e sobre a relação conturbada de seu filho com as drogas. O problema é que o filho dela foi enquadrado em primeiro plano, com uma camiseta amarela e um olhar fixo para a câmera que para aqueles imersos no que sua mãe está falando representa muita angústia, tristeza. Mas para o público foi o momento de relaxamento de uma reflexão aprofundada que gerou gargalhadas constrangedoras e a dúvida se a escolha por este momento foi pensada de maneira a induzir o riso ou a reflexão.

 

Há planos interessantes da favela que contrastam com os planos vazios do condomínio, por exemplo, uma seqüência bonita de roupas penduradas em varais e enquadramentos que ao mesmo tempo em que sugerem o pouco espaço da favela, contribuem para o discurso ‘caloroso’ que virá a seguir pelos “personagens”. Sejam os cantores de rap extremamente conscientes, a família alegre onde a cada intervenção do pai ou da mãe aparece um novo filho no enquadramento (outro momento complicado que desencadeou em risos), a mulher fadada a viver com homens alcoólicos, ou a já citada mãe do rapaz drogado; Cidade Dual transita entre um território de abordagem interessante e algumas escolhas que desviam o discurso de seu potencial reflexivo.

 

*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.


Filmes Citados:

A Vila (The village/M. Night Shyamalan, 2004)

Cidade Dual (idem/Leo Ayres, 2007)

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