
A Plenos Pulmões
por João Toledo
Não se pode dizer que falta fôlego ao curta documental À Plenos Pulmões de Patrícia Moran, por mais poluído que seja o ar que cerca sua atmosfera urbana. No caos da metrópole paulista, o filme aborda, em sua confusão narrativa também poluída, bem ao ritmo da maior cidade do Brasil, uma estranha diversidade de cidadãos com suas opiniões e formas de enxergar o famoso Minhocão – via de concreto que recorta horizontalmente a paisagem do centro de São Paulo. Por mais áridas que sejam as opiniões, estando as vozes que as pronunciam abaixo ou acima do viaduto, ecoa um certo otimismo de quem aceita aquela situação, e respira, sem problemas, todo aquele caos. O bom humor do cidadão é também o bom humor do curta, que demonstra eloqüência na forma de retratar tudo o que emana do povo abordado. No final, depois de retratadas as diversidades, a confraternização dominical dilui todas as diferenças, enquanto paulistas pintam flores de tinta e tomam sol no Minhocão fechado.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
O Homem
por João Toledo
O homem. Quem é? Logo de saída, nossa ingenuidade nos deixa enganar quanto à procedência de um guarda de trânsito. Entre assuntos prosaicos com a jornalista apressada, sua simpatia deixa a impressão de um funcionário exemplar. Pensamos ser este o homem. Já nas próximas situações, retratadas sempre em tom realista, com planos quase documentais, percebemos o homem astuto e ardiloso, que extorque dinheiro de motoristas através de um consórcio com o dono do bar da esquina. É ali que os motoristas vão para deixar o “cafezinho” do guarda, em troco da remoção da multa. Isso se repete algumas vezes (ou vezes demais), deixando claro o que realmente dirige o dia-a-dia do personagem central.
Quando já estamos nos acostumando com a esperteza e o cinismo do personagem, o vemos sendo cruel com um homem simples, motorista de uma lata motorizada caindo aos pedaços; mais uma vez se quebra a forma como enxergamos o personagem. Será mesmo aquele o homem? O motorista da lata velha segue humildemente em direção ao bar da extorsão; some de quadro por alguns instantes e reaparece, com o dono do bar, fazendo gestos estranhos com a mão. O guarda, confuso, devolve gestos à distância.
No fim do dia, indignado com a escassa margem de lucro, o guarda percebe que seus gestos irrefletidos revelaram ao dono do bar sua intenção de entregar ao homem simples todo o lucro dessa brincadeira ilícita de fazer dinheiro. Mais uma vez o filme nos trai e implode a noção construída. O homem não era aquele homem, mas outro, e nessa brincadeira sacana de se furar o olho, encontrar a brecha, fugir dos pepinos e passar a perna, o homem é o próprio diretor, é o paulista, o carioca, o brasileiro... O homem é o próprio homem, em sua pulsão de vida ou instinto de sobrevivência, munido de tudo aquilo que dele emerge nessa guerra civilizada. O homem, certamente, somos todos nós.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
A Vida ao Lado
por Mariana Souto
O filme de Gustavo Galvão se insere em um conceito bastante popular entre os curtas de festivais: uma certa “estética do silêncio”. Não há diálogos em nenhum momento e as ações sugerem ambigüidade, uma espécie de fracasso de comunicação com o próximo - ou com a vida ao lado. Uma moça gosta da outra e hesita em procurá-la. A segunda moça gosta do cara, que hesita em se matar. Alguns planos gerais de prédios de muitos apartamentos transmitem a idéia da urbanidade e das várias vidas que se cruzam, ou gostariam de se cruzar, mas têm dificuldade de fazê-lo.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Aquele Cara
por Mariana Souto
A animação de Rafael Coutinho retrata um mundo em que pessoas são dedos, com roupas, acessórios e tudo mais. O único personagem que tem rosto é um fugitivo perseguido pela polícia que recebe olhares estranhos de toda a população de dedos da cidade grande em que se passa a trama. A idéia parece ser uma referência ao mundo urbano contemporâneo em que os indivíduos são identificados por sua expressão digital ou por um número de cadastro, em detrimento do nome ou do rosto. Todos são iguais e torna-se difícil diferenciar cada sujeito e sua especificidade, aquilo que o torna singular e o difere da multidão. Entretanto, a premissa interessante se perde com um desfecho fraco, já que se pretende ser uma piada e não consegue fazer rir. Tampouco faz pensar, já que parece não expor seu pensamento crítico ou posicionamento sobre o tema e o espectador médio provavelmente enxergará o filme como uma curta piada em animação, sem abstrair o significado das pessoas serem dedos e de todo o contexto para essa opção.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
E aí, irmão?
por Gabriel Martins
Até o corte final deste curta, seu trabalho de direção me parecia muito inexato e indeciso. Temos aqui vários recortes de uma realidade urbana, que toma como elo entre elas toda e qualquer atividade vinculada ao uso da maconha. Nos são apresentados desde os meros usuários até os negociadores e traficantes. A abordagem varia desde momentos mais intimistas, que quase denunciam todo um sistema, até situações de mero acontecimento casual, esses, a meu ver, momentos prolixos. É interessante perceber, e aí eu retomo a minha impressão do corte final, que aqui neste filme a idéia é simplesmente observar (quase nunca invadindo) estes personagens que vêm e vão sem muita ordem exata de entrada ou saída. Não entro aqui muito em ordem estética, pois a adesão da direção às tendências atuais já previamente discutidas (principalmente em textos da Cobertura de Tiradentes) no cenário de curtas metragens, se auto-explica. O que é realmente marcante aqui é a idéia de que, por mais que aqueles jovens suem, passem por situações constrangedoras, sintam medo, o que vale no final é usar a droga, consumir o produto, chapar a noite inteira. Autodestruição legitimada. Enfim, é um curta sobre maconha...
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Sete Minutos
por Gabriel Martins
A idéia é muito simples: através de uma câmera subjetiva, retratar um acerto de contas entre dois traficantes. Dentro de uma proposta de retratar com realismo um acontecimento quase cotidiano da realidade de uma favela, o curta-metragem proporciona uma experiência interessante do ponto de vista estético, travando uma espécie de duelo entre a forma e o discurso ali presentes. O pensamento inicial é: seria o uso da subjetiva uma forma de proporcionar cumplicidade entre o personagem principal e o espectador, ou exatamente o caminho oposto, a fuga desta mesma relação?
Pensemos: já no título, o filme prenuncia uma emulação. São sete minutos de filme (mais do que sete minutos de uma vida), portanto, o percurso retratado ali não se limitaria a simplesmente uma pequena obra de estilização e até mesmo teste cinematográfico? As atuações são boas, o formato digital fornece granulação proposital (uso de luz “natural”) e a agitação da câmera somada ao off e à brutalidade dos cortes inicial e final (o filme é um plano seqüência), resulta no fim das contas em mais um curta de experimentação que preza mais pelo sentido obtido no resultado chocante de um realismo encenado, do que pelo discurso crítico advindo do cenário de uma favela, da relação “matar ou morrer” ou outras reflexões sociais possíveis dentro desse contexto.
A violência nas favelas é fato. Divulga-se diariamente. Se as notícias estão sendo deturpadas ou não, aqui não é o essencial a se discutir. Mas neste filme em específico, presenciarmos esta “realidade” através de um “olho”, o “nosso” olhar no do personagem principal, instiga uma outra discussão: é realmente relevante, ou até mesmo possível, tentar nos posicionar criticamente diante de um mundo em que não nos inserimos, sendo meros observadores de uma espécie de montagem? Sim, sabemos que é assim que acontece nos morros. Entretanto, o cinema tende a estilizar ou moldar percepções previamente testemunhadas socialmente, desconstruindo seu plano inicial a partir do momento em que invade a individualidade de um espectador ou grupo. Há aqui então novamente a estética da “bandidagem”, constituindo-se de nada mais que representações gráficas de um discurso que parece estar cada vez mais perdido. Se isso é bom ou não como um cinema “social-contestatório”, é complicado dizer. Talvez aqui nem caiba essa análise. Como já foi afirmado, pensar em crítica social em meio a uma obra que é tão submissa a seu formato é difícil, se é que é possível. No filme, um tiro é um corte. O cinema, aqui, mata.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
A Plenos Pulmões (idem, Patrícia Moran/2006)
A vida ao lado (idem, Gustavo Galvão/2006)
Aquele Cara (idem, Rafael Coutinho/2006)
Sete Minutos (idem, Cavi Borges, Julio Pecly e Paulo Silva/2007)
E aí irmão? (idem, Pedro Léo/2006)
O Homem (idem, René Sampaio/2006)