
por Gabriel Martins
Na tarde de domingo (17/06), foram exibidos vídeos que compartilham a temática “Morte: risos e rituais”. A sessão exibiu quatro vídeos que variaram entre a ficção e o documentário.
O primeiro deles, Brasil, de Ângelo Lima, enfoca a questão da perda territorial e moral do índio no Brasil. Através da estética experimental – a câmera na mão sempre em movimento contínuo percorre uma espécie de instalação – o filme consegue atingir um nível sensorial interessante, ainda que para isso tenha que recorrer a um processo de repetição cansativa, porém embasada em todo um discurso de “preservação cultural” embutido no vídeo. A soma de um canto de lamúria constante à imagem catastrófica de um território em ruínas estabelece uma relação de causa e conseqüência que a princípio soa fácil, mas que funciona ao se tratar de uma obra de claro caráter político e reflexivo. A argumentação é simples. O que advém da múltipla interpretação desta, não.
O segundo vídeo Homens ao mar, de Alan Minas, testemunha a redescoberta de Pedro, o protagonista, dentro do complexo existencial e psicológico em que se encontra. A projeção de seu futuro em uma obra de construção, a princípio sem nos definir o seu destino (revela-se depois como um estacionamento), serve como forma de imergir o personagem em um ambiente onírico quase trágico pela ilusão em que coloca Pedro e quaisquer perspectivas de vida “fácil” que ele possa querer. Em certo momento Pedro se enxerga à beira da morte. É uma visão de futuro? É um delírio? Pedro se procura. Ele se acha? O fim é uma constatação da realidade crua e cruel. Não há resoluções momentâneas e o que resta é o caminhar.
Em Interiores, de Vinícius Brum, a morte pode parecer a princípio somente a concreta, a do corpo físico: o protagonista, um músico frustrado, perde em certo momento sua esposa. O interessante aqui é perceber que a morte na verdade é atingida através de um lapso temporal. Há fragmentação e inversão narrativa de forma clara, mas que não permite que se compartilhe simultaneamente o delírio do personagem. A morte, portanto, é do próprio tempo. A natureza da perturbação é concluída somente na cena do personagem com seu padrinho. E aí se coloca em questão: onde começava o delírio e terminava a realidade? Essa brincadeira entre real, fantasia e possibilidades acaba enriquecendo o vídeo, que ainda assume a estética de forma bela, estourando a luz sem se intimidar pela condenação do formato digital.
Vai indo que eu já vou, de Rubem Barros e Marcelo Perez é um documentário estruturado na colagem de 11 depoimentos que revelam a percepção de várias pessoas de diferentes grupos em relação à morte. Dentre as perguntas feitas aos entrevistados, destacam-se as proposições hipotéticas da forma como querem ser enterrados, a música que queriam que tocasse no enterro, dentre outras coisas. O clima, portanto, é claramente de humor, mas que não deixa de esconder por trás de revelações engraçadas uma visão crítica (o cineasta José Roberto Torero fala de forma sarcástica que após ser cremado quer ser jogado em um campo de futebol para virar um “montinho artilheiro”), que mostra o quanto a própria morte, mesmo causando medo, se tornou mais um instrumento de banalização e comercialização (os anúncios de funerárias resumem isso muito bem).
No fim das contas, a opção de tratar com humor um tema de discussão eterna na humanidade mostra o quanto as pessoas tentam fugir cada vez mais deste próprio tema. Não parece ser importante a discussão da morte em si, mas de todo o superficial em torno dela, que diz respeito a meras preocupações terrenas. A ironia aí impera, tornando-se – como quase sempre é – mais um artifício de escape para qualquer questão mais complexa. Fala-se de morte fugindo dela mesma. O vídeo é bom pelo seu cinismo.
Analisando conjuntamente, o que se aponta de mais relevante na curta sessão é a diversidade de abordagens acerca de um mesmo tema. Começa-se no trágico e termina no tragicômico. Não há especificamente uma busca de coerência e sentido conjunto no todo, além da afirmação da morte como algo eternamente recorrente e a efemeridade da vida. São vídeos claramente (e felizmente) assumidos como tais, seja na fotografia como na direção. Um momento curto, mas inspirador.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
Brasil (idem, Ângelo Lima/2006)
Homens ao Mar (idem, Alan Minas/2006)
Interiores (idem, Vinícius Brum/2006)
Vai indo que eu já vou (idem, Rubem Barros e Marcelo Perez/2006)