Cão Sem Dono: Por Dentro da Produção

por Mariana Souto e Ursula Rösele

 

Cão sem Dono, quinto filme de Beto Brant em parceria habitual com Renato Ciasca, adaptado do livro Até o Dia em que o Cão Morreu, estreou ontem em Minas Gerais na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto. Em um bate-papo com participação da equipe do Filmes Polvo, estavam presentes um dos diretores do longa, Renato Ciasca, a produtora Júlia Bock e os protagonistas Júlio Andrade e Tainá Müller. Foram abordados diversos temas, de ordem técnica e reflexiva, a respeito da produção, adaptação do livro de Daniel Galera, equipe, direção de atores, roteiro, dentre outros.

O longa foi filmado em seis semanas, com uma equipe em sua maioria composta por gaúchos, dentro da proposta de um filme com características próprias da cidade de Porto Alegre. A escolha pela equipe reduzida, segundo Ciasca, deveu-se ao fato dos diretores optarem por uma proximidade maior com a ação, propiciar uma imersão natural nas filmagens que independesse de uma relação fortemente atrelada ao roteiro.

O texto, adaptado da obra literária, foi redigido pelos paulistas Beto Brant, Renato Ciasca e Marçal Aquino, mas passou por diversas alterações até chegar à naturalidade do linguajar gaúcho, mais próximo da vivência dos próprios atores. Júlio Andrade passou a viver no apartamento onde seu personagem residia e Tainá Müller trouxe para o papel sua experiência profissional como modelo. Segundo os entrevistados, a partir da segurança no roteiro e na proposta do filme, o elenco ficava livre para improvisações, fazendo com que cada tomada fosse diferente à medida que os atores incluíam novas falas. Alguns deles eram amadores, inclusive parte da família do próprio Júlio.


Dentro dos princípios naturalistas instaurados na narrativa, escolheu-se uma fotografia posicionada de forma com que os atores tivessem liberdade para transitar no set, com a ausência de tripés e equipamentos que limitassem sua movimentação. Também como parte da proposta de câmera não-intervencionista, o filme conta com planos longos e poucos cortes, em sua maioria iniciados e terminados em fade. Tal recurso de linguagem sugere uma concepção de naturalidade própria de uma narrativa que se pretende fluida, já que o emprego do fade em Cão sem Dono pressupõe uma continuidade de ação que independe de cortes, que tem vida própria antes da câmera ser ligada e que teoricamente continua mesmo após o fade out.

 

Assim como outras obras do diretor Beto Brant, Cão sem Dono possui um final suspenso; nas palavras de Júlio Andrade, “a história não tem início nem fim, tem meio”, como se o próprio filme começasse em fade in e terminasse em fade out e se prolongasse após o fim da sessão.

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