
por Leonardo Amaral
Em certo momento do filme, Marina e Domingas Person dizem que muitas de suas lembranças em relação ao pai, Luís Sérgio Person, se dão graças a imagens de filmes caseiros ou da própria obra do diretor – uma expressão quase junguiana em que lapsos de memórias constituem um todo. Marina reconstrói o pai perdido na infância através de fragmentos em super-8 e também por trechos de seus filmes na tentativa de uma imersão dual tanto na figura paterna quanto no cineasta. Em determinadas partes do documentário fica difícil descolar o homem Luís Sérgio do diretor, professor, roteirista e ator Person – suas inquietações humanas estão assaz entranhadas em sua obra, um misto de explosão interior e um olhar angustiado em relação ao mundo.
Ver São Paulo S/A é assistir, com um olhar kafkaniano, a um homem minimizado em relação à cidade, angustiado e preso em relação ao amor, à vida, tudo isso cercado por prédios, viadutos, profusão de veículos e pessoas. A câmera, em muitas vezes, se perde no meio da multidão, como se fosse mais um transeunte, mais um que observa, teme e ao mesmo tempo ama e detesta aquele lugar. O personagem de Walmor Chagas funciona como a metonímia maior dos sentimentos e aflições de Person – o filme possui um caráter acima de tudo humanista, o personagem Carlos, em seus off e discurso às vezes verborrágico, se coloca como alma solitária dos muitos solitários que vivem e viveram em São Paulo.
No documentário, ao mesmo tempo em que colhe os depoimentos, Marina Person filma a cidade, percorrendo alguns dos pontos da capital paulista que outrora estavam em São Paulo S/A. Cada entrevistado traz uma pecinha para a reconstrução do diretor; cada palavra dita funciona, para Marina, como construção de uma figura paternal conhecida muito mais imagética que fisicamente. O tom é ainda mais real a partir do momento em que Marina deixa à mostra os equipamentos de filmagem e também pela maneira na qual se dão às entrevistas – é como se cada uma daquelas pessoas que conviveram com Person estivessem descortinando uma persona até certo ponto desconhecida – ou melhor, menos conhecida – pela diretora.
Entre as imagens das brincadeiras da infância de Marina e Domingas mais trechos da obra do diretor vão sendo colocadas como recurso quase linear da representação de vida de Person. Um desses trechos é o de O caso dos irmãos Naves – Person, no próprio documentário, deixa claro sua preferência em relação a esse filme; ele diz, em entrevista para a televisão, que esse é seu melhor filme, aquele no qual ele se pode estabelecer, de maneira mais madura, sua visão humanística das pessoas e de provocar sentimentos dúbios em quem assiste ao filme.
Esses sentimentos dúbios estão incutidos em todo ser humano, são aquelas expressões psicológicas discutidas por Dostoeivski em sua obra. Homem tem a capacidade de ser ao mesmo tempo injusto e altruísta, de ter culpa em relação a alguma coisa e, ao mesmo tempo, acusar outrem em relação a essa mesma coisa. O caso dos irmãos Naves desnuda esse ser humano capaz de sentir alívio e desprezo pelo outro, de querer esconder interiormente aquilo que o aflige. Temos repúdio pelas pessoas que julgam, torturam e acusam os irmãos sem olhar para nós mesmos, sem perceber que, durante toda a vida, somos capazes de fazer a mesma coisa – é um pouco daquilo que Jorge Luis Borges: “o ser humano é uma invenção que não deu certo”.
Luis Sérgio Person era um ser humano que, se não deu certo, pelo menos sabia disso. Na medida em que o documentário se passa, isso vai ficando claro. São vários os momentos em que a vida parecia mais difícil para Person – em um desses, ele foi obrigado a trabalhar com propagandas e publicidade, o que muito o desagradou. A intensidade de vida do cineasta era antagônica a esse tipo de coisa, havia uma dicotomia que acabou não resistindo por muito tempo. Entre fracassos e acertos, Person, a todo instante, se mantinha firme em seus ideais, em sua coerência pessoal, até mesmo em suas críticas a uma certa ordem ideológica do cinema novo. Mesmo em situações duramente representadas, havia, nos filmes Person, um apuro técnico em sua estética, principalmente na retratação de um ser mínimo em relação a um contexto local ou temporal.
Entre recortes familiares, filmes e casos, vai se formando, imageticamente, a figura de Luis Sérgio Person. O tom é claramente sentimental de quem busca um ser ausente que ao mesmo tempo é presente por conta das imagens e daquilo que pode ser visto em seus filmes. Para Domingas, muito do que ela conhece do pai está nos filmes, de tudo o que ela viu. Há sim intensidade em tudo aquilo que Person fazia, uma efusividade plena de sentimentos e emoções. O cineasta Carlos Reichenbach – aluno e bastante influenciado pela obra de Person – diz que Luis Sérgio vivera a vida em grande intensidade, como se, de certa forma, previsse viver pouco (Person morrera com 39 anos).
Ao fim do documentário, a narrativa se concentra mais na figura familiar de Person, na maneira próxima com que ele se relacionava com a esposa e principalmente com as filhas. Para o cinema, o documentário funciona, se visto por uma determinada ótica, como um registro histórico. Para Marina, funciona como algo que traz para mais próximo de si a figura de quem ela, paradoxalmente, conhece pouco e muito. Ao final, ela e a irmã caminham por um túnel, por sobre trilhos. Caminham enquanto a câmera observa a caminhada. Caminham para frente mas sem deixar pra trás, mesmo que metaforicamente, a figura de alguém que, menos não presente, foi fundamental para a formação humana e sentimental das duas.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
São Paulo S/A (idem, 1965/Luis Sérgio Person)
O caso dos irmãos Naves (idem, 1967/Luis Sérgio Person)
Person (idem, 2006/Marina Person)