
por Rafael Ciccarini
Helena Zero
Classificado como documentário, Helena Zero, de Joel Pizzini, submete o público a uma experiência audiovisual cuja classificação é não apenas difícil como necessariamente diminuidora da proposta multifacetada desse vídeo que parece querer prestar uma homenagem à determinada figura feminina em todo seu universo de potência, contradição, encanto e choque.
E essa figura - a musa multifacetada de Pizzini - é nada menos que Helena Ignez, persona decisiva do cinema brasileiro, que iniciou sua carreira com Glauber (com quem foi casada) em seu primeiro trabalho no cinema, o curta O Pátio, de 59 e atuou em filmes centrais como O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, marco do Cinema Novo. Mas foi no cinema marginal que Helena encontrou sua expressividade maior, em parceria fundamental com Rogério Sganzerla, se tornando uma figura mítica, emblemática e chave para a compreensão do universo dos marginais brasileiros.
E aqui Pizzini se vale do fragmento, do choque visual, das oscilações sonoras e cromáticas para recriar a figura de Helena num ambiente que talvez seja o mais conveniente a ela própria: pulsão, força e encanto numa beleza violenta, que encontra harmonia em sua atonalidade. Quando essa Helena diz “eu quero carne humana, ice-kiss, coca-cola e chocolate”, temos menos uma forma de saber de fato quem é essa mulher, mas uma espécie de caminho-símbolo do lugar onde ela está e preserva sua força.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Documentário 2
Enquanto em Helena Zero o retorno ao Marginal pela retomada de Helena (ou o retorno à Helena pela caminho marginal?) aqui em Documentário 2 temos uma homenagem ao universo marginal (nas figuras de Tonacci e Sganzerla) ao mesmo tempo em que se quer discutir o cinema nacional contemporâneo, suas contradições, possibilidades e entraves.
Como não podia deixar de ser diferente (dada a fonte do material), o tom é debochado, irônico, solto. Os mais que conhecidos ‘problemas’ do cenário cinematográfico brasileiro são discutidos em forma de bate-papo por dois diretores de cinema que passeiam pelas ruas de São Paulo. Faz-se um filme sobre os problemas de se fazer e se viver de filmes no Brasil. Em metalinguagem o que parece querer-se dizer é que enquanto estamos ‘discutindo seriamente os problemas do cinema brasileiro’ poderíamos estar fazendo filmes mais verdadeiros, autênticos, expressivos.
Ainda que sem a força de Helena Zero (visto logo antes) e que em fórmula algo desgastada (mesmo que dialogando com a obra de Rogério Sganzerla e Andrea Tonacci, dos cineastas mais pulsantes, o vídeo nunca consegue deixar de ser morno), Documentário 2 dá o seu recado.
*Visto na 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes Citados:
Helena Zero (idem,2006 / Joel Pizzini)
Documentário 2 (idem, 2006/ Rene Brasil)
O Padre e a Moça (idem, 1965 / Joaquim Pedro de Andrade)
O Pátio (idem, 1959 / Glauber Rocha)