Cerimônia de Abertura e “Rio 40 Graus”

por Ursula Rösele



A 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto teve sua cerimônia de abertura oficial (as oficinas começaram no dia 14/06) na noite de ontem já em um clima não somente propício, como digno da reflexão que se propõe tanto nas mesas redondas, na escolha dos profissionais que as compõem e nos filmes a serem exibidos.

Tendo como início uma apresentação sucinta (diferente do que foi dito da abertura na 10ª Mostra de Tiradentes) e uma bela homenagem ao cineasta escolhido para ‘encabeçar’ o tema principal (cinema nacional dos anos 50) - Nelson Pereira dos Santos -, acredita-se que teremos dias de muitas oportunidades de não somente repensar o lugar do cinema brasileiro, como refletir acerca da posição que se tem no que tange à sua conservação, manutenção e recuperação das cópias existentes dos filmes para compreendermos melhor os processos de criação do nosso cinema, até para, inclusive, perceber as tendências atuais do mesmo.


A escolha do primeiro longa-metragem de Nelson Pereira Rio 40 Graus para a noite não pareceu apenas uma questão ‘lógica’ de mostrar ao público a obra que iniciou a carreira do cineasta. Teoricamente, para apresentá-lo parece óbvio que se inicie pelo seu primeiro filme. Mas este filme vai além deste conceito... não existe uma cópia restaurada em película (há uma cópia em processo de restauração atualmente) e sua exibição em betacam prenuncia as discussões que se propõem aqui. É absurdo que uma obra prima do cinema nacional não possa ser vista com a qualidade e preservação merecidas.


Após a homenagem com “A Voz do Morro” (composição de Zé Keti) nas vozes de Maurício Tizumba e das cantoras Regina Sousa, Raquel Coutinho e Beth Leivas numa interpretação fidedigna das atuações de Grande Otelo e Ângela Maria em Rio Zona Norte, o filme Rio 40 Graus foi rodado em vídeo, áudio de ruim compreensão, porém, relembrando àqueles que já o haviam assistido e possibilitando aos ‘sortudos’ que o apreciaram pela primeira vez a percepção de seu contexto extremamente atual, forte roteiro, interpretações contundentes, trilha sonora e espetacular montagem e direção.


É fascinante perceber que em 1955, Nelson Pereira tenha realizado um filme com tanta amplitude humanista, técnica e teórica. Com seus ares refletidos do neo-realismo italiano e uma representação que também transita entre a realidade e ficção (na retratação fiel de questões sociais relevantes e sua conjunção a uma percepção e interpretação poética e bela da vida em contextos tão diferenciados), Rio 40 Graus é cinema pleno e atual.


É impressionante que, há 52 anos atrás o cineasta tenha construído uma narrativa cujos fragmentos de histórias se entrelaçam através de cortes que cadenciam o teor dramático do filme até seu momento de catarse, onde tantos elementos parecem se unir na amplitude que é a cidade do Rio de Janeiro, em uma seqüência final fabulosa que finaliza sem finalizar, deixando ao espectador a grandeza de uma história que não termina e que até os dias atuais parece não terminada.


Recém saídos da 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes, num cenário da crítica atual no qual a mesma parece buscar não somente a reflexão, como de certa forma a batalha pelo cinema nacional; da união da ‘velha guarda’ com a nova geração de estudiosos, percebe-se um panorama atual (não só nas mostras como na crítica e na prática fílmica) de conexão e de aprendizado. Haja vista a reunião no palco na noite de ontem dos críticos de cinema Cleber Eduardo (também curador da mostra) e Daniel Caetano, da filha de Nelson Pereira (pois infelizmente o mesmo não pôde comparecer devido a um problema repentino de saúde), do cineasta Rodolfo Nanni, do professor e pesquisador José Tavares Barros e José Carlos Avelar (crítico e pesquisador).

 

É com muita ansiedade que Filmes Polvo inicia sua cobertura nesta cidade histórica que trará à baila o novo no painel nacional, o cinema dos anos 50 e o desejo de instigar a percepção da importância que a manutenção do passado de nosso cinema tem para o crescimento intelectual e criativo dos cineastas, críticos e estudiosos contemporâneos.


Certamente uma história que não terá fim... fica um dos planos finais de Rio 40 Graus, em que a uma cena de sua catarse final (onde ele sai de uma seqüência de cortes harmônica na qual as histórias são de certa forma conectadas para realizar cortes mais secos que parecem diminuir a distância entre um personagem e outro) a câmera registra um maracanã lotado de todo tipo de pessoas e uma faixa de onde não se pode ler toda sua frase ‘Basta ser um rapaz direito pa...’. Nelson Pereira dos Santos deixa o pensamento. Resta saber o que fazer com ele.

 

*Escrito para a 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.

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