
Um lugar para beijar
por Mariana Souto
Um lugar para beijar começa quase como um filme experimental, com imagens em câmera lenta e longo tempo de exposição (o que dá o efeito de movimentos arrastados e luzes que formam linhas) ao som de uma locução de um texto poético, em segunda pessoa do plural. O filme fala a partir de um “nós”, mas apresenta diversas facetas de um universo. Aos poucos, o curta se transforma em um documentário padrão, com vários personagens dando depoimentos e até mesmo letreiros indicando o nome dos entrevistados e sua profissão, recurso que aliás provoca identificação no espectador.
Fala-se de um mundo que pode ser considerado underground – locais escondidos e adversos que são usados para encontros gays, desde bailes e cinemas de pornografia até cemitérios – a partir daqueles que o freqüentam e de agentes de prevenção. Os letreiros então dão nome aos personagens que não são simplesmente corpos à procura de outros corpos, mas Fulano de Tal, pedreiro, ou Ciclano de Tal, garçom. Histórias pessoais e íntimas são compartilhadas, sendo que muitas trágicas, mas nem por isso o filme cai num tom de melodrama. Os momentos tristes são contados com um sorriso no rosto ou uma expressão de resignação que se mistura com esperança, como o depoimento de um senhor que foi rejeitado pela família e perdeu o namorado em um cenário de pôr-do-sol e amplo horizonte.
Ao mesmo tempo em que ouvimos entrevistados opinando que gays são promíscuos por natureza, outros relatam sua fidelidade e carinho com seus parceiros. Enquanto uns falam de sexo ao ar livre, outros comentam que não se beijam na frente de crianças ou idosos. Um lugar para beijar procura retratar a diversidade do mundo gay, mas sem fazer contraposições pela montagem. Os exemplos citados logo acima não são aproximados por uma edição comparativa, mas apresentados com naturalidade ao longo do filme. Por fim, o curta trata da homossexualidade e suas formas de ocupar seu espaço, seja ele físico ou social.
* Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Amanda e Monick
por Gabriel Martins
Amanda e Monick tem exatamente estas características. O filme conta a história de Amanda e Monick, duas travestis do Cariri Paraibano. A primeira é professora de ensino médio e fundamental, respeitada mesmo tendo sua homossexualidade explicitada. A segunda, aluna de Amanda, mantém um relacionamento com uma lésbica (que espera um filho dela) e se prostitui. O fato das histórias de Amanda e Monick serem atípicas, raras, torna-se o elemento chave de comunicação com o público. Em certo momento, vemos o pai de Amanda defender a opção do filho e dizer orgulhar-se dele independente de suas escolhas. Ao utilizar este discurso, que cria um espaço de identificação óbvio com a maioria dos presentes, o filme claramente busca a empatia do espectador. Assim, o documentário passa a enfatizar excessivamente este momento, tornando o pai, já imaculado por sua integridade e aceitação, um instrumento praticamente de protesto. Um filme que se pretende expositivo (objetivo, limpo de posicionamentos explícitos frente a expressão dos entrevistados), acaba utilizando a fala do pai como um instrumento excessivamente idealizador – uma frase dita por ele volta em texto escrito nos minutos finais, em tom de esperança para a Humanidade. Ainda que legítimo como um sentimento positivo daquele entrevistado “modelo de pai”, cinematograficamente o recurso soa excessivamente publicitário. De toda forma, são situações bem interessantes ali expostas que se somam às imersões narrativas ficcionais (a composição de um quarto com cabeças de bonecas remete a uma projeção quase infantil de beleza e ideal da personagem), trazendo um documentário de personagens bem fortes.
* Visto no II for Rainbow
Noite Fria
por Mariana Souto
O filme de Felipe Camargo Adami começa com um bom plano de aproximação dos 3 protagonistas em uma estação de trem - um movimento de travelling eficaz em criar um clima soturno. O silêncio dos personagens, o ambiente vazio e algumas quebras de eixo reforçam o tom de estranheza positivo para a introdução da trama. Mas com alguns truques visuais desnecessários como o do espelho do banheiro e as telas divididas, aos poucos o vídeo caminha para uma artificialidade que compromete a relação do espectador com os personagens.
É possível ver uma certa coreografia nos movimentos dos atores, como se o diretor lhes tivesse dado marcações, o que resulta em um balé carregado de um drama sufocado, o que na verdade pode ser positivo se pensarmos que esse movimentar remete à situação do personagem que está apaixonado pelo amigo, da garota que tem uma paixão escondida pelo primeiro personagem e a toda aquela atmosfera de aprisionamento. O apartamento que os três dividem e até mesmo o enquadramento do café da manhã, com todos eles juntos em um mesmo plano, espremidos no mesmo banco, reforçam a ligação e inter-dependência que existe entre os dois rapazes e a moça, parte de um ciclo que se mantém não apenas por falta de opção, mas pela escolha tortuosa de um deles.
* Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes citados
Um lugar para beijar (idem, 2008/ Neide Duarte)
Amanda e Monick (idem, 2008/ André da Costa Pinto)
Noite Fria (idem, 2008/ Felipe Camargo Adami)