
por Gabriel Martins
No princípio do documentário, Jards Macalé está discutindo com seus realizadores a proposta do documentário em si, suspeitando da capacidade de resultar em um produto digno de sua história. “Eu não quero que vocês desconstruam o que eu construí”, ele diz. É esta noção do processo de construção que faz com que o artista interfira em esferas da realização, deixando desde o início portas abertas à possibilidade de participação mais interventiva no desenvolvimento. Em entrevista à TV da Mostra de Tiradentes, Macalé diz ter aberto o seu baú, este que guarda um emaranhado de imagens extenso (muita coisa em super-8 e outros vários registros dele e seu entorno). Um morcego na porta principal é um agregado de recortes que, frenéticos desde o início, tentam demonstrar parte do que é a personalidade e a história do músico através, principalmente, da expressão do próprio.
Parte da fragmentação presente diz respeito à persona de Macalé, um conjunto de temperamentos e percepções artísticas que tornam sua figura - principalmente dado o momento histórico de seu auge (final dos anos de 1960) - uma representação da contracultura sempre interessante. A execução de Gotham City mostrada no filme é de uma beleza incrível e resume, pela música, tanto um conflito histórico quanto a maneira de Macalé se colocar artisticamente seu ponto de vista – a fragmentação do compasso e a execução livre, de sutil improviso. Ele diz em certo momento ter enfrentado, nu, um policial que tivera feito sua mãe chorar, uma ação não só cômica, mas resumo de sua afetividade e afronta ao silencio e à obediência. Este momento faz um paralelo com a imagem de Macalé tocando para sua mãe no balanço, a música como uma expressão de ternura.
E o projeto segue no ritmo de Macalé e do que ele oferece em música e voz, traçando pedaços da história da música e da política (era dos festivais, tropicalismo, “emepebismo”). Em outro momento ele comenta a briga que teve com Dory Caymmi relativo a uma nota diminuta sugerida por este em uma música, algo bem exemplificador da particularidade que é a música para Macalé, músico essencialmente de detalhes tanto em composição como execução. E é no cuidado em apontar singularidades que, mesmo seguindo certo didatismo, Um morcego na porta principal deixa o seu “assunto” fluir, concedendo a Macalé um poder de auto-descrição, por assim dizer, que torna o filme especial.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes citados:
Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal (idem, 2008/ Marco Abujamra)