Praça Saens Pena

por Nísio Teixeira

 

O filme de estréia de Vinícius Reis na ficção trabalha com o universo da região da Tijuca, no Rio, a partir da visão do professor Paulo Barbosa (Chico Diaz), que se propõe a escrever um livro sobre o lugar. Os conflitos sociais e o universo musical da Tijuca, berço de várias referências nacionais, propõem uma tônica ao livro.

 

A produção do livro, conjugada com uma carga horária de aulas excessiva e com a disputa pelo mesmo computador com a mãe Tereza (Maria Padilha) e a filha adolescente (Isabela Meireles), colocam a família em crise, deixando mesmo margem ao risco do relacionamento extraconjugal. Barbosa, ainda em meio às suas pesquisas e passeios pela região, inclui principalmente a praça que dá nome ao filme – batizada em homenagem a um presidente argentino que nunca visitou o lugar – e também consegue uma entrevista com Aldir Blanc, um dos ícones musicais tijucanos.

 

O elenco, que ainda inclui Gustavo Falcão, Guti Fraga, Stela Brajterman e Maurício Gonçalves está bem conduzido por Reis, em especial os planos domésticos, ilustrados por um certo gesto cru e direto da câmera, mas também travellings e planos da região. Assim, temos uma espécie de crônica da Tijuca, o que reitera o ponto de partida do livro, que é, precisamente, falar da região: a proposta do filme se complementa, assim, à do livro, num diálogo interessante.

 

Duas questões, porém, contrapõem-se a essa boa idéia: a primeira é uma seqüência existente após uma recusa de Tereza a Paulo, na cama, durante a noite. Tal seqüência mostra Paulo na praça Saens Peña reencontrando Macedo, personagem central para desencadear o mergulho paralelo do escritor ao universo da Tijuca. Ele diz a Paulo que se trata de uma situação absurda e que ela merece apanhar. A seqüência termina e é sucedida pelo casal acordando. A sugestão que fica, portanto, é a de um sonho que prenuncia um problema futuro. Mas a presença dessa seqüência produz uma quebra do fluxo cronológico da trama, além de, após dela, não termos mais nenhuma informação sobre Macedo.

 

A segunda seqüência a ser ressalvada aqui é a final, que termina com uma narração em off, ainda que com belas imagens da noite tijucana. Como o filme se abre com o off de Paulo sobre a origem de seu casamento e de sua chegada à Tijuca, o uso deste recurso da filha numa carta endereçada aos pais como encerramento poderia fechar um ciclo, no bom argumento apresentado pelo crítico João Carlos Sampaio. Mas ainda assim, o seu uso como fechamento parece uma solução anticlímax para toda a tensão gerada na seqüência anterior.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filme Citado:

Praça Saens Peña (idem, 2008/dirigido por Vinícius Reis)

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