
por Gabriel Martins
Desde curtas como Demônios, Isabel e o Cachorro Flautista e Meressias, Christian Saghaard já demonstrava apego pelo mítico, o misticismo, o fantástico e folclórico injetados no universo underground. Não à toa, Carlos Reichenbach e José Mojica Marins fazem pontas neste filme que, por si só, é a junção anárquica de todos os valores supracitados parte do repertório do diretor.
Fazendo um ensaio experimental que, em uma de suas vertentes, volta o olhar aos conflitos sociais urbanos, Saghaard aposta na força das imagens e da anti-narrativa, cinema sem tempo. Como bom fotógrafo que é, busca valorizar cada enquadramento como fragmentos únicos de sua obra (fortes influências “Bressanianas”). O primeiro encontro de Macário com Exu é levado por uma vibração grave de áudio pontuando uma estética de pesadelo que percorre o resto do filme. Temos a sensação de presenciar o caos em uma galeria de arte regionalista. O pesadelo volta da boca de Exu para elevar São Paulo a uma Babilônia de desajustados.
A fraqueza de O Fim da Picada está na forma como estabelece sua abordagem crítica no meio do excesso de licenças dentro da “lógica” interna. O conceito de “tudo é possível” já se estabelece quando o Mickey entra em cena para apresentar a civilização ao personagem principal. Até aí tudo bem. Mas são estes valores: estrangeiro seqüestra filho de madame, criancinhas burguesinhas lavam o sangue do pára-brisa, moleque negro e pobre cheira cola e vê a televisão distorcida, que levam o potencial crítico da obra de Saghaard a tomar rumos pouco instigantes. Muitas vezes é na própria instauração do caos, sem esses instantes de mediação clara (não é tão difícil estabelecer “contato” com as metáforas supracitadas), que a própria situação de Brasil no filme ou, de filme no Brasil pode possibilitar uma análise mais profunda, maior que o próprio filme. Cenas como a mulher de cabeça recolocada correndo na academia junto a uma trupe de figurantes bem selecionados resume bem o tipo de impacto que a obra possui em muitos momentos, um impacto válido menos por seu potencial social-simbólico, mas por seu aspecto cinematográfico imagético.
A relação com o non-sense, o fantástico, acaba por se tornar a interseção que Christian Saghaard consegue ter com o seu cinema do Brasil. A propriedade que tem de narrar uma história que, mesmo possuindo um encadeamento latente, demonstra uma boa verve do diretor para um cinema de relações desconexas de espaço e tempo (personagem parte de 1850 para chegar a São Paulo contemporânea) demonstra que, para Saghaard, os acontecimentos são regidos pela arte. Ainda que perca a intensidade em seu meio, O Fim da Picada consegue se reerguer ao final, jogando-nos do gore ao folclore em uma narrativa antropofágica que, flertando também com o Joaquim Pedro de Macunaíma e O Homem do Pau-Brasil, faz uma representação tensa das possíveis maneiras de se recortar o Brasil.
*Texto escrito para a 3ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Filmes citados:
O Fim da Picada (idem, 2008/ Christian Saghaard)
Macunaíma (idem, 1969/ Joaquim Pedro de Andrade)
O Homem do Pau-Brasil (idem, 1982/ Joaquim Pedro de Andrade)