Vida

por Ursula Rösele

 

Vida é um filme que reflete fortemente o intenso sentimento de amizade e admiração da cineasta Paula Gaitán pela sua personagem, a atriz Maria Gladys. Para além de uma cine-biografia, é um tratado de sua imagem, seu rosto, da expressividade de uma personalidade que jamais poderia ser descrita de maneira convencional. Gaitán deu ao seu filme um ritmo interessante, deixando transparecer aos poucos seus laços com a atriz num desenrolar de estratégias não somente de uma poesia intensa, como de um crescendo que estabelece todo um transcorrer temporal sem apoiar-se em  início-meio-fim, mas centrando-se sempre na imagem, no espaço de Gladys, na cidade de Gladys, em sua existência e numa presença que permanecerá, na imagem da filha e em sua trajetória no cinema.

 

Há um saudosismo não melancólico naquela mulher, em toda a carga simbólica que Gaitán intensifica no filme. Os tecidos esvoaçantes que revelam em seu passar as fotografias de uma Gladys criança, jovem, mulher. As cores estão por todo lado, evocando uma infância na qual seus aniversários tinham como tema, em cada ano, uma cor. Um contexto no qual cabe recitar poemas, trazer às palavras, “Aniversário” de Fernando Pessoa, “somam-se-me dias/serei velho quando o for/mais nada./raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira”. Na impossibilidade de trazer esse passado, revelá-lo, singelo, inteiramente simbólico.

 

Nesse caminhar narrativo todo particular, Gaitán deixa algumas dubiedades durante um tempo do filme. Inicialmente, o filme é todo Gladys, seu rosto, seu off. Assim como no curta Phedra (exibido na Mostra), a personagem parece dirigir-se a si própria, definir ela mesma o que quer dizer. Aos poucos, Gaitán surge no filme, na voz que orienta a atriz, na inserção em um plano, na parte de seu rosto ao lado de Gladys recitando um poema.  Se começamos em um filme aparentemente só Gladys, de silêncios, de off poético, temos um rompante momentâneo, quando a voz de Gaitán invade o filme-Gladys: “agora vira para a câmera e fala o texto”. Seria este um momento intencional de quebra narrativa? Uma espécie de apresentação de um novo personagem, que comanda, mas também participa da ação?

 

O filme de Gaitán são vários filmes, uma constante alteração de algo previsto, dirigido, sim, mas afeito à possibilidade de mudanças, de quebras. É o filme de Gladys, o filme de Gaitán, o filme das duas, o filme do cinema. É a Gladys que Gaitán vê, deixando que Gladys possa ver-se também, nos espelhos muitos, nos dizeres para o espelho e não para a câmera. Uma espécie de direção dupla na qual os sentimentos deságuam em todos os poros. Gladys interfere, pega sua agenda, diz que vai fazer coisas para animar o filme. Fusão constante, de idéias as quais não saberemos nunca de onde surgiram. E não importa minimamente.

 

Depois de um mergulho intenso na atriz/mãe/mulher Gladys ao longo de sua vida - sem sabermos histórias concretas e claras sobre sua evolução, mas evoluindo num experimento puramente estético e sensorial – vemos a dança-catarse, a fusão mãe e filha, num sopro de continuidade, saída do ventre, imersa na arte. Podemos, agora, entrar de fato na Gladys-cinema, invadir essa luz da projeção que dará ao filme seu desfecho eterno, das imagens que permanecerão para muito além de todos nós. Vamos, portanto, aos filmes. Vários, várias seqüências, várias Gladys. E a força de uma amizade, de um olhar da cineasta para seu filme, de uma mulher para a outra.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes Citados:

Phedra (idem, 2008/Cláudia Priscila)

Vida (idem, 2008/Paula Gaitán)

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