
por Nísio Teixeira
O longa As Iracemas, de Alexandre Pires Cavalcanti, aborda quatro mulheres que vivem isoladas na região de Ribeirão do Prata, em Raposos. E, em um exercício de delicada aproximação – que levou um pouco mais de dois anos –, os diretores repassam essa gradação ao espectador. Contou-me Bernard Belisário, roteirista e editor, que tal gradação foi na verdade melhor decidida na montagem, ou seja, o filme não segue a ordem cronológica aparentemente apresentada no longa.
De qualquer forma, houve a opção por um exercício de aproximação, produzido de maneira bem delicada. O filme abre com depoimentos de vizinhos sobre as mulheres, o que aumenta nossa expectativa em conhecê-las. As Iracemas – uma avó, duas filhas e a neta – mostram-se distantes, a princípio inacessíveis e, gradativamente, vão permitindo que a equipe se aproxime de seu universo. A câmera, por exemplo, que começa à distância, na seqüência final do filme já está dentro da casa, do quarto, em meio às fotos, objetos e brinquedos daquelas mulheres tão introspectivas.
A avó conta histórias de sofrimento e opressão por parte de uma “companhia” e da “polícia mundial”, que tirou a vida de sua mãe. As outras falam de seus hábitos, costumes e, ao final, recorrendo os objetos – em especial uma bonequinha antiga – à própria memória de infância. Uma das irmãs fala, às vezes, de maneira incompreensível e foi muito boa a decisão dos diretores de não utilizar legendas: ajuda a manter o grau de distanciamento, de decifração, necessário para se entrar naquele universo.
A construção das imagens e dos planos respeita a velocidade contemplativa da vida isolada das mulheres e de seu tempo – exceção feita a alguns closes súbitos, em que essa sensação é quebrada um pouco, mas não prejudica a proposta do longa, que ainda soube aproveitar as fagulhas do fogão de lenha para incorporar aos créditos.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filme Citado:
As Iracemas (idem, 2008/Alexandre Pires Cavalcanti)