
Corpo no céu
por Gabriel Martins
O curta digital Corpo no céu acompanha os últimos momentos de uma jovem prestes a deixar a casa da mãe. Esta despedida, contada através de um olhar que procura permanecer sempre atento à sua personagem, procura sempre suas reações. Na cena em que a personagem toma banho, Luísa Marques a grava com uma espécie de busca por desvelá-la, que burla a própria erotização, ainda que esta esteja inevitavelmente presente, inerente à nudez da atriz. Mesmo assim, o rosto é mais importante, e o resto está lá como mera circunstância da cena, um momento específico da saída que é crucial de se testemunhar, dada a proposta do filme. Vistas estas virtudes, vale dizer o quanto, mesmo prezando por uma articulação que prenuncie um olhar poético, o filme exacerba as últimas ações ao envolvê-las com a música final de Joanna Newson que, executada quase por completo, acaba por trazer uma dispersão e esvaziamento da imagem (o que costuma acontecer no videoclipe, uma mistura de registros voltados mais à música que a si próprios). Com isso, somos distanciados de uma possível relação mais intimista com a personagem que, até então, estava sendo buscada por alguns caminhos bem interessantes.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Apenas dois garotos
por Gabriel Martins
Apenas dois garotos procura discutir relações sociais dentro da casa de uma família de classe média, focando principalmente na figura dos filhos. Apresenta de forma interessante um comportamento ainda pouco explorado no cinema brasileiro que é o da figura da empregada como alguém que não se apresenta como submissa, mas como uma presença familiar na casa, que instaura uma posição de conflito e sabe se impor quando necessário. Olhando proximamente, vemos que a patroa é quem acaba ocupando esta posição submissa. Aí, enquanto a empregada parece saber mais sobre o filho da patroa que a própria, esta dá trabalho ao filho da empregada e até empresta dinheiro a ele como se fosse, de certa forma, uma maneira de resgatar o poder. O mais interessante do curta, que perde sua força nos diálogos e na decupagem (o quesito “novela” do filme), é a forma como todas estas características ficam latentes, buscando sutilizar a discussão tornando-a, exatamente por isso, mais forte.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Noite de Serão*
por Gabriel Martins
Noite de Serão é uma obra que dialoga diretamente a sua proposta narrativa com o universo de seus personagens. Conta a história de cinco homens de cerca de 30 anos que se recusam a assumir qualquer compromisso na vida e, portanto, passam o dia sem fazer nada. De forma rigorosa, o diretor Fernando Secco coloca o conformismo em relação às dificuldades da vida – quem não tem peito pra enfrentar fica ali, em um sofá na calçada – de maneira discretamente triste. Se o humor presente nos diálogos e situações pode inibir o espectador de perceber parte da melancolia presente ao longo do filme, certamente ela se faz mais clara nos “50 centavos” do sutil plano final. Narrado em enquadramentos predominantemente fixos que utilizam o tempo lento como uma forma de acompanhar a monotonia dos seus personagens – o diálogo citado na frase inicial do texto -, Noite de Serão é um curta-metragem que consegue transitar entre a ambição cinematográfica (pode-se perceber uma influência do cinema oriental, como o de Jia Zhang Ke) e a possibilidade de um diálogo fácil com o público (as reações após o filme demonstram esta impressão), algo que, somado às outras virtudes já citadas, acabo por torná-lo um grande filme.
*Texto escrito para o CineBH 2008.
Filmes citados:
Corpo no Céu (idem, 2008/ Luisa Marques)
Apenas Dois Garotos (idem, 2008/ Sérgio Bloch)
Noite de Serão (idem, 2008/ Fernando Secco)