Curtas-Metragens – Série 5

Vestida

por Rafael Ciccarini

 

Vestida é um filme peculiar. Por um lado, está bastante inscrito na carpintaria de certa geração jovem de cineastas (Ioiô Filmes, como exemplo), qual seja, filmes em geral que buscam (e muitas vezes conseguem) uma narrativa límpida, cristalina, em trabalhos marcados tanto pela qualidade no trato com atores quanto pelo esmero na concepção dos espaços e na construção de visualidade e ritmo. Alem disso, e talvez seja das principais características desses filmes, são obras que lidam principalmente com inquietações urbanas contemporâneas.

 

Já nesse filme de Juliana Rojas, a quem conhecemos, sobretudo, pelo seu marcante Um Ramo (em parceria com Marco Dutra que, aqui, faz a produção), estão presentes vários desses elementos: a busca da limpidez narrativa, o cuidado visual, o ritmo acertado e algumas peculiaridades importantes: ao contrário da urbanidade acima aludida, aqui a ação se passa num contexto rural, numa pequena propriedade no interior de Minas, para onde o personagem retorna ao saber da morte de sua mãe.

 

E nesse registro diferenciado, Rojas optou pela utilização de atores amadores, moradores da própria cidade, que interpretam basicamente a si mesmos. Disso resultou um filme tão interessante quanto irregular, pois tenta de alguma maneira trabalhar em pólos diferentes (o de vinculação mais clássico-narrativa e o de vertente mais moderna), resultando em um meio termo que perde em expressividade: não temos nem a limpidez que nos faz envolver no que se quer contar, nem a potência de uma relação mais radical com o real.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

São

por Rafael Ciccarini

 

A exemplo de Vestida, filme que antecede a este na sessão “Curtas-metragens série 5”, São tem a morte como motor da ação. O personagem recebe a ligação informando da morte de seu pai; depois (através do tradicional off de leitura), temos acesso à carta que o morto deixa para seu filho, na qual, ao contrário do que se possa fazer supor, simplesmente acaba com o rapaz, num texto que exala rancor e mágoa em cada palavra proferida.

 

E é aí que o filme arma o terreno dramático pelo qual navegará: uma vez que a carta é necessariamente a palavra final do pai, não há o que ser feito e o personagem terá que viver o resto de seus dias com a amarga e completa reprovação do pai a tudo o que ele é e significa (ou ao menos é isso que parece a princípio).  A seguir, o filme se desloca para relação do personagem com sua namorada nos dias que se seguem ao ocorrido.

 

Narrativamente competente (ainda que demasiado convencional), o curta nos envolve naquele cotidiano onde vemos a namorada sempre amorosa e carinhosa, preocupada com o bem estar do rapaz e determinada a fazê-lo ultrapassar esse momento de perda. Não sabemos, no entanto, se ela conhece o conteúdo da tal carta; é algo que parece ser compartilhado apenas entre o personagem e o público.

 

Mas a moça guarda seus segredos. Assim como o próprio curta ao, no ato final, fragmentar sua dramaturgia de base e passar a centrar-se em  torno do objeto-símbolo desse lugar de mistério: a pequena caixa. E, então, São ganha força ao renunciar às explicações e acrescentar camadas de dúvida que se superpõem: não se sabe exatamente, por exemplo, em que medida a caixa e seu conteúdo (se há) se relacionam com a carta inicial.  Qual é o tamanho do mistério que há entre cada um daqueles sorrisos e dores, a dimensão do abismo?

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Cortejo Negro

por Gabriel Martins

 

Em meio a uma sessão que teve como tema comum a morte, Cortejo Negro talvez foi o filme que a tratou de forma mais direta, priorizando o lado estético ao filosófico. É contada, através de relatos do próprio protagonista, a história de como ele foi traído pela mulher e assassinado pelo amante. Sua percepção do ocorrido e relato se dá após a morte, caminhando em retrocesso. Ainda que possua um tratamento visual cuidadoso, o projeto caminha em uma tentativa de poetizar que a seu modo é falha, principalmente devido ao fato de grande parte desta poesia partir de palavras. É complicado desvincular a carga simbólica da imagem e ainda apreender o texto. Na soma, as palavras tornam-se mais sons que elementos de significação próprios, dada sua estrutura semântica mais complexa e carente de uma interpretação própria e isolada. Cortejo Negro fecha-se mais como uma obra de desvendamento narrativo que deslumbramento poético, como em muitos momentos o filme tenta ser. Com isso, uma possível utilização da bela estética cede a um texto que não complementa a imagem, mas a afoga, sobrando uma narrativa que, por mais instigante que possa parecer, traça um caminho inferior às suas potenciais virtudes traçadas em outra instância.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Muro

por Gabriel Martins

 

Existem certos filmes que provocam algumas reações que a um primeiro momento são indecifráveis, complexas de serem registradas em texto. Muro é um exemplo. Há ali um turbilhão de imagens carregadas de signos próprios, mas que não se pretendem uma conexão e justificação conjunta em uma instância meramente narrativa. No filme, é trabalhado um significado maior do cinema que é o de ferramenta de expressão e construção, a arte que possibilita traduzir idéias e sonhos em um nível diferenciado das outras artes. E é sensacional ver um filme como Muro, que presta uma verdadeira homenagem à concepção cinematográfica e à própria noção da imagem como catalisadora de um deslumbramento com a subversão da física da vida e das coisas através da manipulação cinematográfica – sendo os recortes rápidos iniciais da corrida um contraponto ao uso de câmera lenta no final. Por isso o cinemascope como uma ferramenta não só visualmente impactante, mas representativa de um momento em que o cinema evoca para si uma atenção que estava sendo perdida para a televisão, nos anos 50. O formato, além de aproveitar a tela em toda sua extensão, satisfaz a necessidade de uma arte grande, um impacto do tamanho do cinema e que vêm de trem, lá de trás. Portanto, Muro consegue ir além de um discurso social existente em si (que é importante), para mirar um enumerado de sensações – algo como correr sem respirar – e atingir algo que é indecifrável: nossa relação de amor e inquietação com o cinema.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

 

Para Limpar Lágrimas, Paulo Leminski

por Rafael Ciccarini

 

 

Filme-ensaio a partir de fragmentos variados da obra do poeta Paulo Leminski. Fica absolutamente latente em cada fotograma a devoção da diretora ao universo da criação de Leminski, o que não transforma o filme apenas em exercício pessoal sem maiores significados, como muitas vezes nos deparamos. Ao contrário, a diretora consegue criar um caleidoscópio de imagens que impressionam pela vivacidade: o trabalho com a película, com as texturas e superposições, além de ser marcante por si só, consegue dar um clima que soa adequado ao evocado pela poética à qual reverencia.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filmes Citados:

Vestida (idem, 2008/Juliana Rojas)

São (idem, 2008/Pedro Severien)

Cortejo Negro (idem, 2007/Diego Müller)

Muro (idem, 2008/Tião)

Para Limpar Lágrimas, Paulo Leminski (idem, 2008/Cristiana Miranda)

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