Curtas Digitais – Série: Ensaio 2

Até que chegue o fresco do dia

por Úrsula Rösele

 

Há determinadas instâncias da realidade industrial/capitalista já desgastadas, talvez não em sua abordagem, mas num certo constante que torna a rotina nesses parâmetros um tanto quanto óbvia, sem esforço intelectual,  num ritmo contínuo de suas mecanicidades. O fresco do dia, se chega, chega à noite, no silêncio das máquinas, no exalar de suas fumaças e constâncias. O fresco é praticamente a espera, a conformidade da repetição inevitável de uma fábrica e os elementos visuais que a compõem e retratam afirmações sem necessitarem de palavras. Representá-la, portanto, é seguir seu ritmo, aprofundar-se nele, em seus simbolismos por si só já tão “falantes” que não há necessidade de pessoas para dizê-los.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Bolívia te Extraño

por Nísio Teixeira

 

O primeiro filme de Dellani Lima apresentado na série recolhe imagens de uma trajetória pela Bolívia e investiga as texturas possíveis de som, luz e movimento nesse percurso. A música típica do charango, a hiperalvidez do famoso “deserto de sal” e, de especial efeito, o balé de cores e saias em momento peculiar do filme são exemplos distintos dessa estratégia.

 

O interessante é que ele se inicia com uma fotografia em contra-plongée de umas crianças em cima de uma armação de madeira e finaliza com o que parece ser uma derrapada dos carros durante a viagem pelo deserto, terminando com nova fotografia: a de uma singela borboleta.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

KO

por Nísio Teixeira

 

Colocado logo após o filme anterior de Dellani, cujo final é sugerido por uma derrapada e suspenso pela imagem da borboleta, KO torna-se um curioso complemento, pegando-se aqui o sentido de nocaute. Assim, após o knock out do filme anterior, mergulhamos numa velocidade mais lenta, singular e semidelirante. O registro em preto-e-branco reforça o descolamento da realidade propiciado pelo filme.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Luz Industrial Mágica

por Nísio Teixeira

 

Partindo sugestivamente com um jogo de palavras próximo ao nome da famosa firma de George Lucas, a Industrial Light & Magic, o filme de Kleber Mendonça Filho registra, em diversos países e situações, a incrível obsessão contemporânea em trocar o ver as coisas pelo filmar (ou fotografar) as coisas.  Nos quatro mil cantos do mundo, expõe-se o efeito especial frenético das multidões em busca da captura da imagem de algo ou alguém. Por isso, com o objetivo de realçar o gesto, o filme opta pela estratégia contrária: o registro desacelerado, a ênfase ou mesmo a repetição de alguns planos, num efeito que beira o patético em vários momentos.

 

Há também, no início e no fim do filme uma referência a outra Luz Industrial Mágica: aquela propiciada pelas máquinas de Xerox, outra obsessão contemporânea. Assim, entremeado pela sensação de excesso de cópias e informação, o filme deixa no ar a idéia de que realmente parece que vivemos “um filme B hollywoodiano”, uma espécie de teledramaturgia, como desabafou outro diretor, André Sampaio, durante debate em Tiradentes.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Sumi

por Ursula Rösele

 

Um país a nós estranho, uma língua que por si só dá vazão ao imagético que a câmera irá buscar. Em seus ideogramas, podemos encontrar significados e mergulhar naquilo que não significa literalmente. Aliado ao som, à expressividade que sua edição no cinema pode alcançar, os movimentos, barulhos da tinta, do espaço e das vozes, nos convidam a um universo que, se não explicitado pela palavra, é capaz de fazer movimentar na imagem.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Nem Marcha Nem Chouta

por Ursula Rösele

 

Um filme que não é nem uma coisa, nem outra. Nem marcha - talvez metaforizando algum progresso daquele ali em estado estático à mercê de sua realidade -, nem chouta – esse trote, esse caminhar miúdo e incômodo, de criança, de quem não pode responder por sua própria existência. Um filme que não é ficção, nem realidade. Apenas um lugar perdido no mapa, uma criança e seu olhar fixo naquilo que lhe é estranho ali: a câmera. A nós, já acostumados com a idéia do registro, o susto pelo cruel do espaço: a carne crua, o sol que castiga, as moscas, a seca e a realidade de uma situação distante de um universo no qual as câmeras transitam por todo lugar. O que resta ali é o boi morto, decepado, símbolo imagético e literal do que há no “entre filme/realidade”: a beleza do cruel, revelando a crueza do real.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Máquinas de Rotação Contínua

por Nísio Teixeira

 

Um personagem inusitado abre o filme de Alex Lindolfo e, em seguida, um barulho constante de latas de óleo – três, para ser mais preciso – perpassa diversos caminhos de terra. Está aí o dispositivo das máquinas de rotação contínua, as quais, através não só do áudio, mas de uma edição constante de imagens, mergulham o espectador numa sensação de intermitência tal que parece que elas devem ainda estar em circulação em algum lugar do sertão.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Máquinas de Rotação Contínua

por Ursula Rösele

 

A criação da roda como o mote para diversas representações do universo e suas conseqüências evolutivas. Num lugar distante, a muitos anos de sua invenção, o cru da terra, dos pés, de uma máquina que gira num mecanismo simples, simbolizando, talvez, uma certa melancolia do desenvolvimento que pode vir a levar ao ostracismo de instrumentos já desgastados. Nesse caminhar, metaforiza-se uma evolução não consciente, de um universo constantemente em movimento, ainda que não desejemos aceitar.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

El Pintor Tira el Cine a la Basura

por Úrsula Rösele

 

A fusão – para aqueles que não só estiveram na sessão de ontem, como conhecem a obra de Cao Guimarães – das duas artes que o “são”, num confronto simbólico de seus limites e incertezas. Para ele, as artes plásticas e/ou o cinema. Na tela, a pintura. Na tela, a projeção da obra. Os limites estão estabelecidos ali e guerreiam no que parece ser uma espécie de conflito artístico interno. Retirar da tela o que é do cinema, retornar do lixo ao que é instalação. Da arte à arte, que permaneça o sopro do fazer.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Filmes Citados:

Até que chegue o fresco do dia (idem, 2008/Simone Cortezão)

Bolívia te Extraño (idem, 2008/ Dellani Lima e Joacélio Batista)

Ko (idem, 2008/Dellani Lima)

Sumi (idem, 2008/Marina Fraga)

Nem Marcha Nem Chouta (idem, 2007/Helvécio Marins Jr.)

Luz Industrial Mágica (idem, 2008/Kleber Mendonça Filho)

Máquinas de Rotação Contínua (idem, 2007/Alex Lindolfo)

El Pintor Tira el Cine a la Basura (idem, 2008/Cao Guimarães)

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