
No tempo de Miltinho
por Gabriel Martins
Curioso este título, No tempo de Miltinho, remetendo tanto à idéia do ritmo específico do músico, que o consagrou, como o tempo da própria vida. E o documentário investiga esta vida tomando como estética uma dinâmica própria da televisão, com algumas animações e fragmentações do quadro que, mesmo cedendo a uma superficialidade, dá um ritmo importante ao filme. E funciona bem assim, como um documentário de relatos cuidadosos, muito bem executado em toda sua extensão (ótima pesquisa, filmagem e finalização) fazendo jus à personalidade de um personagem que consegue ser a todo momento interessante.
*Visto na 12ª Mostra de Tiradentes.
Cruz e Sousa, a volta de um desterrado
por Gabriel Martins
Cruz e Sousa, a volta de um desterrado tem a grande falha de tentar acompanhar uma estética da arte do poeta buscando, na linguagem visual, “ilustrar” a escrita, dar-lhe um além significado. Mas é uma opção constantemente irregular esta de impor vertigem na câmera como um paralelo ao ritmo vertiginoso do poeta. Em algum momento os elementos não casam, resultando muito mais em desorientação. Não se apreende o texto e nem a imagem, virando tudo um grande descanso de tela.
*Visto na 12ª Mostra de Tiradentes.
Phiro
por Gabriel Martins
Seguindo uma linha próxima a Saba, projeto anterior também de Gregório Graziosi, Phiro encontra-se em uma sessão de documentário exemplificando, aliás, como esta rotulação é insuficiente. Phiro se desenvolve através de uma direção que, se fossemos analisar tradicionalmente, aproxima-se completamente da ficção ou, melhor dizendo, da encenação. “A presença da ausência”, diz a sinopse do filme. E é este vazio, tanto do quadro como do personagem central - que está sem sua companheira - o que traz ao filme uma melancolia traduzida no tempo, fiel à espera e à saudade. Mais uma obra interessante de um diretor que tem empregado um olhar peculiar à temática do idoso, esta que lhe parece uma matriz interessante.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Reaver
por Gabriel Martins
Escrevi um texto sobre este filme na mostra CineOP e, talvez por não ter feito jus a ele – mesmo sendo um texto elogioso -, escrevo aqui algumas outra impressões e inclusive discordâncias do próprio texto. O filme cresceu, o que acaba sendo interessante do ponto de vista da organização de sessões e de mostras, certamente interferentes na recepção aos filmes. Segue no próximo parágrafo o texto original, da CineOP, e logo depois alguns comentários a respeito do filme e do texto.
Objetos perdidos anunciados na cidade de Tiradentes por megafones. Também, pessoas em busca desses objetos perdidos, vestígios de memórias. Acompanhamento em registro bruto digital da vida em diferente compasso. O achar, procurar algo ou alguém que lhe dê um valor parece ser uma motivação maior para que se leve a vida. Com uma técnica que, ainda que preserve a naturalidade dos acontecimentos, se desgaste ao longo da narrativa, o clássico documentário vai se valer pelo que se propõe à frente da tela, com bons relatos e imagens que nos situam em elementos do outro, de uma cidade que se conserva fisicamente e, para isso, precisa da constante atenção à memória.
Não creio mais, ao rever o filme, que seja a procura citada algo que motive aquelas pessoas a levarem a vida, pelo menos não da forma simplista como foi colocada. O processo de procura me traz, agora, uma questão importante do filme que é a existência de um tipo de relação afetiva somente possível nesta esfera de cidade menor, como Tiradentes, em que é possível anunciar algo para praticamente todos da cidade através de um megafone. A linguagem que antes fora reconhecida como desgaste, agora apresenta-se como algo inerente à informalidade do registro. Inclusive, fica claro como o filme se constrói através de enquadramentos interessantes como, por exemplo, quando a equipe vai até a casa de um garoto buscá-lo e permanece o acompanhando enquanto, este, não se deixa afetar de forma evidente pela presença da câmera, criando uma cumplicidade na realização. É uma pena que o filme não tenha sido mais amplamente divulgado na Mostra, já que trata-se de um registro único da cidade que provavelmente interessaria a muitos moradores daqui. De toda forma, o filme se destaca pelo forte tratado à memória e construção de relações feitas na cidade, algo cuidadosamente filmado e sempre interessante.
* Revisto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filmes citados:
No Tempo de Miltinho (idem, 2008/ André Weller)
Cruz e Sousa, a Volta de um Desterrado (idem, 2007/ Cláudia Cárdenas e Rafael Schlichting)
Phiro (idem, 2008/ Gregório Graziosi)
Reaver (idem, 2008/ João Vargas)