A Fuga, A Raiva, A Dança, A Bunda, A Boca, A Calma, A Vida da Mulher Gorila

  fugamulhergorila

  por Marcelo Miranda

 A errância é uma das várias palavras-chave que parecem permear o andamento de A Fuga da Mulher Gorila. Desde o título original é possível detectar o quanto o filme se adere a uma certa idéia de errático: A Fuga, a Raiva, a Dança, a Bunda, a Boca, A Calma, a Vida da Mulher Gorila. É como se as palavras estivessem perdidas, caminhando entre uma linha e outra, podendo estar aqui e ali, serem trocadas de lugar, irem e virem – e mesmo a possibilidade permitida pelos diretores Felipe Bragança e Marina Meliande de resumir o título é também um aspecto errático.

 

O filme transita por gêneros. É um musical, mas também road movie, romance, melodrama, aventura. Felipe e Marina incorporam aspectos destes gêneros não para subverter, debochar ou renovar, mas para expor elementos identificáveis pelo olhar do espectador acostumado aos tais gêneros e, dentro da estrutura dramática e de encenação, destituir o filme de todas as classificações possíveis e torná-lo algo único, particularizando com os personagens e com o público o que acontece na imagem.

 

É também errante o passeio de Felipe e Marina pelos gêneros, como é errante a câmera que acompanha os protagonistas. Se há um fio narrativo em A Fuga da Mulher Gorila, ele se adequa mais a um “fiapo dramático” do que necessariamente o encadeamento de situações com vias a alguma conclusão. O filme não lança nenhuma questão premente e, logo, nada tem a concluir. Desde a concepção do projeto, passando pela realização e culminando no contato filme-espectador, o que há são fragmentos – mas não fragmentos clicherizados, no sentido de situações desordenadas ou sem sentido aparente.

 

O fragmento, aqui, é da ordem do carinho, do gesto, do olhar, do corpo transitório que absorve o espaço e por ele se deixa absorver. Cada pequeno elemento sonoro e visual presente no filme elenca um universo sutil de sensações e percepções apenas possíveis de perceber pelo somatório das cenas. O filme começa no meio e termina no meio de uma errância jamais muito definida, mas sempre exposta através do movimento e do ambiente.

 

Nisso a presença da estrada é fundamental, pois, assim como A Fuga da Mulher Gorila absorve a cultura de determinados gêneros cinematográficos para trazê-los de volta travestidos de outra coisa, o espaço é igualmente sugado pela câmera e pelos atores e depois reordenado tão logo é deixado para trás. Banheiros sujos de beira de estrada, postos de gasolina, refinarias de petróleo, cantinhos de mato, o interior da Kombi, a tenda circense, o lago, todos os locais por onde se transita no filme são passíveis de oferecer alguma sensação a quem lá permanece, por breves minutos que sejam. Os protagonistas não são modificados por esses espaços, e sim incorporados a eles – assim como a garota não é um gorila, mas se torna a figura monstruosa pelo mero truque de luzes e espelhos que substitui uma imagem pela outra via um efeito de fusão.

 

A música surge em toda essa errância igualmente dispersa e irregular. Novamente não se usa aqui estes adjetivos de forma negativa. A irregularidade das canções (compostas por Felipe Bragança) é ela mesma errática e destituída de qualquer valor agregado ou anterior. Até por serem criações especialmente usadas no filme, o espectador não identifica ou reconhece letra e melodia, e isso ressignifica a própria utilização das músicas. A cantoria (ou sussurros melódicos, como foi definido pelo crítico André Brasil) guarda entre suas funções uma maneira dos personagens interagirem com o espaço, consigo mesmo e com as relações que vão criando entre si. É outro elemento tipicamente carinhoso proporcionado pelo filme, este objeto estranho e imensamente afetuoso que é A Fuga da Mulher Gorila, cuja existência, antes de querer impor alguma visão específica de cinema, é, acima de tudo, a marcação política e disfarçadamente engajada de quem foge da tradição sem abrir mão dela.

 

Filme Citado:

A Fuga da Mulher Gorila (2009, Felipe Bragança e Marina Meliande)

 

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