Curtas-Metragens - Série 4

Os Sapatos de Aristeu

por Gabriel Martins

 

Há uma semelhança entre o projeto de Os Sapatos de Aristeu e a fotografia still, um tratamento específico sobre a individualidade do plano. O filme nos propõe o silêncio e a espera, elementos que enfatizam a potência da decupagem, a mise-en-scène que ordena os atores em planos favoráveis à câmera. Ainda que exista uma narrativa evidente, a significação da imagem, seus dizeres internos, trazem um tratamento particular mais interessantes que apenas um enredo. Evidenciar o corpo na encenação, este que é elemento de conflito entre os personagens, é perceber que a câmera tem um poder de edificação. O desenho de cena estabelece um diálogo entre os espaços, algo representativo da própria valorização do corpo em duas esferas diferentes – o Aristeu de dentro de casa é um, o Aristeu de fora é evidentemente outro, e ambos devem pertencer simultaneamente a estes dois ambientes habitando um corpo só. Mas o corpo é mais da rua, e está mudado. Daí a tesoura, como se fosse uma maneira de pegar um pedaço de cabelo representativo tanto do Aristeu negado (o cabelo foi cortado, era longo e feminino), como do velho, o DNA, algo imutável. E esta lógica ascende até o belo plano final, um registro da impossibilidade de entender a identidade de Aristeu, pois, neste caso, ela só consegue ser reconhecida no físico.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Phedra

por Ursula Rösele

Em Phedra, o olhar está todo voltado para a personagem central, que aparece em solo narrando suas vivências, do primeiro ao último plano do filme. Phedra Córdoba é uma atriz transexual que veio de Cuba para o Brasil no final dos anos 1950.  No contexto da sessão de ontem à noite, Phedra surgiu como uma espécie de complemento interessante que rompeu com a - já há muito rompida – barreira real/ficção. No primeiro curta exibido, Os Sapatos de Aristeu, Phedra encena praticamente ela mesma, no velório de um amigo também transexual. Na seqüência, entramos na casa da atriz e conseqüentemente em seu universo memorial através de seus relatos e encenações.

A escolha de locação foi bastante feliz, por ir num interessante crescendo, primeiramente em sua casa, em enquadramentos diminutos, nos quais Phedra inicialmente comenta imagens suas antigas numa pequena TV e depois vai para o quarto, onde somos absortos pelo seu imaginário, enredado por um ambiente simples e totalmente separado das experiências que conta, para irmos enfim ao palco, onde ela reinará absoluta, atuando/sendo a Phedra da maneira que é conhecida publicamente.

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Hóspedes

por Ursula Rösele

O título Hóspedes é muito interessante, uma vez que - no sentido literal – há apenas uma hóspede no filme. Uma garota sofre um acidente e acorda em uma cama estranha, com gesso em uma das pernas e um bilhete de Renato, dizendo que tomou a liberdade de olhar sua bolsa para saber quem era sua hóspede. Não sabemos nada deles, de onde vieram e que tipo de experiências carregam. Ela observa o apartamento, olha a gaveta de Renato, idealiza em suas expressões seu “desconhecido salvador”. Aos poucos – e todo o ritmo do filme é construído aos poucos – entendemos de onde vem o plural de seu título.

Os dois são hóspedes do mundo, estranhos perdidos em sentimentos de não-pertencimento. Ela, por uma dor escondida em imagens antigas as quais vemos apenas trechos em seus devaneios de tristeza, que parecem guardar um antigo amor; ele, por ser anão (apesar de em nenhum momento o filme usar disso como um empecilho). Hóspedes, além de respeitar profundamente essas questões, desenvolve uma cadência doce, na qual descobrimos muito pouco, mas acompanhamos a libertação daquele corpo preso (literal e metaforicamente) ao gesso, à angústia, a imagens que – em seu imaginário – não a abrigam.

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Cidade Vazia

por Gabriel Martins

 

Há um paralelo muito forte entre Cidade Vazia e Alguma Coisa Assim, de Esmir Filho. Em ambos os filmes, o percurso dos personagens através da cidade representa um sentimento de descoberta geográfica que funde-se à descoberta pessoal, como se o percurso proporcionasse uma mistura de sentimentos/pensamentos próprios da vida urbana, que não concede muito tempo à reflexão. Isto se mistura com a própria fase da adolescência, da descoberta desta vontade de gostar de alguém, de beijar, de experimentar a sexualidade. Então “cheirar a calcinha”, “peidar”, são coisas que o filme trata como um processo orgânico da intimidade, esta que existe entre o casal de jovens a ponto de sentirem liberdade entre si. Mais que isso, esta própria intimidade acaba sendo também uma base ao posterior desconforto existente quando é preciso encarar a afetividade. O pedido de desculpas da garota, ao fim, é fruto de um constrangimento de se assumir que, somado à necessidade de se expressar e ao ato de sentir - que é inescapável-, cria uma dualidade entre o espaço interno e externo, o ser e a cidade, sendo corpos no espaço. Na cidade vazia, o trajeto não se conclui.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Eu e Crocodilos

por Gabriel Martins

 

Eu e Crocodilos gira em torno de crises. Crise com o mundo, crise com o corpo, crise com a estética. Há um lago sujo, fotografado em amarelo quente, um espaço metafórico representativo deste perigo de imergir, de enfrentar o mundo e seus crocodilos. O constrangimento com o corpo, reforçado pela pressão externa causada pelo irmão e amigas, consegue falar sobre um mundo que cobra certos padrões e oprime a auto-estima – o irmão da personagem é cruel.  Conecta-se bem com uma leva de curtas-metragens nacionais, alguns inclusive dentro da mesma sessão, que buscam flertar com o universo adolescente de forma nem sempre original, sugerindo certas fórmulas que podem sofrer – se já não sofrem -, certo desgaste. Eu e Crocodilos, em parte, segue certo convencionalismo simbólico que, ainda que bem executado, não fornece exatamente uma perspectiva diferenciada. De toda forma, é um bom exemplar de uma corrente clássico-narrativa que tem se colocado de forma interessante no cenário, estabelecendo uma busca imagética coerente com a gênese de seu projeto.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Dez Elefantes*

por João Toledo

Talvez a grande proeza desta produção carioca seja realizar uma obra de montagem complexa (o amigo polvo João Toledo citou Eisenstein), que brinca com a temporalidade e, ainda assim, não nos descentrar da singularidade do cenário. Dois irmãos experimentam a vida em um sítio. A menina, de forte presença em cena e que acaba tomando a dianteira, passa por situações da infância que o filme busca retratar por um prisma sensorial bem interessante. A fotografia tem um papel central nesta busca: rodado em 35mm, o filme tem um aspecto fotográfico e documental, com tons escuros e desbotados que remetem a uma memória revisitada. E de certa forma a proposta reside nisso,  em olhar a experiência somando a descoberta da vida – que muitas vezes se dá nos pequenos acontecimentos – com o modo de processamento destas informações na nossa cabeça (a montagem que vai e volta). No conjunto, Dez Elefantes proporciona um deslumbramento visual que não é gratuito, buscando refletir, na sua imagem, uma possível aproximação tátil com a natureza das coisas.

*Texto escrito para o CineBH 2008.

Filme Citado:

Os Sapatos de Aristeu (idem, 2008/Luiz René Guerra)

Phedra (idem, 2008/Cláudia Priscila)

Hóspedes (idem, 2008/Cristiane Oliveira)

Cidade Vazia (idem, 2008/Cássio Pereira dos Santos)

Eu e Crocodilos (idem, 2008/Marcela Arantes)

Dez Elefantes (idem, 2008/Eva Randolph)

Alguma coisa assim (idem, 2006/ Esmir Filho)

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