Curtas-Metragens - Série 3

O Dia em Que Não Matei Bertrand

por Rafael Ciccarini

Interessante no curta de Ives Rosenfeld e Luis Carlos Oliveira Jr. a forma como os diretores lidam com todo um imaginário que circunda o universo do conto que resolveram filmar, de Sérgio Sant’Anna. Ao contrário de tentar de alguma forma escapar do gênero e todas as duas derivações, o filme parece tomá-las como referência (não como apoio), tentando encontrar sua singularidade em sutilezas da encenação, no seu rigor de concepção.

Para que a interiorização desse imaginário em mise-en-scène funcione, parece fundamental o jogo como próprio título do filme e suas ambivalências: de alguma forma ele já nos antecipa o que acontecerá (ou o que não acontecerá), mas também permite uma série de outras interpretações, como um possível pastiche com esse já aludido universo, o que acaba gerando uma expectativa curiosa em relação ao que se verá na tela: de que se trata, afinal, esse filme?

A expectativa é necessária para que se abra terreno para observação da mise-en-scène em sua nuance: há uma espécie de integração de corpo, espaço e tempo que dão força às imagens, planos e durações. Fica na cabeça o personagem e seu revólver, atirando sem balas, depois colocando, uma a uma, as balas no tambor; aí há uma série de questões e símbolos (cinematográficos e não) em jogo, mas interessa aqui o fato de que, sabendo do desfecho de antemão, a cena deixa de ser “apreensiva” no sentido do thriller clássico e passa a funcionar mais como duração, como presente de uma relação fragmentária entre o homem e um objeto tão pleno de significações como um revólver.

Por fim, se O Dia Em Que Não Matei Bertrand também pode ser visto como um filme sobre a solidão, a mesma não está em dramatizações repetitivas, mas, sobretudo, nas imagens que constrói a partir desse dia em que, como todos os outros, aliás, o personagem acabou por não matar o tal Bertrand.

 *Visto na 12ª Mostra de Tiradentes

 

Osório

por Ursula Rösele

Osório, também profundamente inserido no tema central da mostra, “o personagem no cinema”, chega a ele de uma maneira diferenciada, procurando aos poucos um personagem que, apesar de estar de certa forma no papel da moça que aparece já em primeiro plano, surge também na Praça General Osório (Curitiba – PR) e em tudo aquilo que ela abrange – inclusive a moça. É um filme que faz uma fusão espaço-personagem que os unifica sem deixar de dar atenção à subjetividade de cada um.

O mundo ali parece um pouco restrito (simbólico e espacialmente), num espaço reduzido pelos seus limites, os do apartamento, da quadra de futebol dos garotos que jogam na chuva, do muro que separa o parque do resto. A escolha do enquadramento para a praça (vista da janela apartamento) é curiosa, pois evidencia essa espécie de “prisão” que parece ser a da solidão, da moça, daqueles que caminham a sós na noite, do próprio parque na madrugada. A praça, como personagem, é vista de um ponto também complexo, de um “lugar” que não participa do que vê. Temos uma quase divisão de tela, uma vez que do lado direito está a praça, separada por um muro e do lado esquerdo, a rua, que, apesar de não fazer parte do filme, fortalece o sentimento de solidão que ele possui.

O olhar solitário, então, encontra ainda um outro lugar, de certo conforto dessa solidão, de compartilhamento de sentimentos. Da moça ao observar a praça vazia, da praça ao abrigar os solitários que por ela transitam.

 

N º 27*

por Marcelo Miranda

Imagine um filme de Robert Bresson em que o protagonista tem uma dor de barriga na escola, suja-se no banheiro e entra em estado de choque ao tentar evitar que seus colegas entrem a qualquer custo. Guardadas as proporções, é mais ou menos essa idéia que se sobressai neste curioso curta, em que o ascetismo da encenação, a falsa inexpressividade do ator e os longos planos o tornam um trabalho peculiar e de estética bem pensada. Lordello faz de uma situação banal (e passível de ser o pesadelo de qualquer adolescente) um exercício de linguagem e austeridade, que, mesmo com o claro rigor que emana de suas imagens, deixa transparecer certa liberdade na realização, ainda que o controle das cenas por vezes pareça sufocar a proposta.

*Visto no 41º Festival de Cinema de Brasília.

 

Passos no Silêncio

por Rafael Ciccarini

Uma professora de alemão recebe de um de seus alunos, o pedido para que lhe traduza um poema. A partir dessa premissa um tanto quanto simples, se desenvolve Passos no Silêncio, que na verdade acaba por se mostrar antes uma aventura sensorial pela forma com que Guto Parente dá imagens e sons à jornada interior de sua personagem.

De início ressalte-se a ousadia do diretor ao construir um filme que primeiro anuncia uma linha narrativa, uma história propriamente dita, não para ser o fio condutor do filme, mas para a partir dela fazer o filme derivar, deslizar para direções que vão redimensioná-lo estética e conceitualmente (o plano da corrida da personagem em direção ao canal é brilhante),  para, então, retornar ao mote inicial, agora já outro - a tradução é para ela, antes, recriação plena.

Visto na 12ª Mostra de Tiradentes

 

Superbarroco

por Marcelo Miranda

 

Lembranças, alucinações, surrealismo, sobreposições, tudo se mistura numa massa só neste curta alucinado e alucinante, que começa de forma tradicional e torna-se um verdadeiro sonho em forma de película. Por alguns instantes fui remetido a Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, menos pelos desdobramentos do que pela aura de inquietude, de uma mentalidade sendo projetada na imagem, da sensação de que absolutamente qualquer coisa poderia brotar da tela. Há planos de cuidadosa plasticidade (o personagem se banhando), em que os ângulos da câmera tentam transmitir as sensações mais íntimas. Muito da força de Superbarroco deve, para além da direção de Renata Pinheiro, da entrega de Everaldo Pontes como o protagonista, um misto de insanidade e ingenuidade, uma figura que encarna a tragédia de corpo e mente mesclada à ânsia de viver a qualquer custo, venha o que vier de dentro ou fora da própria cabeça. Trabalhando o cenário com acuidade na mistura de tempos e espaços, esta pérola pernambucana já nasce como um dos trabalhos mais instigantes da nova safra de curtas brasileiros.

 

*Visto no 41º Festival de Cinema de Brasília.

 

Filmes Citados:

O Dia em que Não Matei Bertrand (idem, 2008/L.C. Oliveira Jr. E Ives Rosenfeld)

Osório (idem, 2008/Heloísa Passos e Tina Hardy)

No 27 (idem, 2008/Marcelo Lordello)

Passos No Silêncio (idem, 2008/Guto Parente)

Superbarroco (idem, 2008/Renata Pinheiro)

Um Cão Andaluz (Um Chien Andalou, 1929/Luís Buñuel)

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