
O Canto Torto do Olho
por Nísio Teixeira
O filme, dirigido por Ramon Cavalcante e Grupo T.R.E.M.A., aborda a dimensão urbana da madrugada de Fortaleza, trazendo diversos personagens, mas, aponta para o destaque, logo na abertura, de um deles, Mônica. Ele parte de um ônibus que sai da madrugada para, em seguida, retratar esses personagens, seja em seu local de trabalho noturno, seja em um orelhão – sempre entremeados pelos depoimentos da Mônica, curiosamente calcados em sua experiência com cinema e outros motes audiovisuais.
O filme, assim, acaba se consolidando como digamos, um filme em trânsito, como os próprios passageiros, na quente madrugada de Fortaleza aos 27 graus. Da mesma forma, parte de retratos de ambiente externo dos terminais e da rua para o interno dos lugares onde ganham a vida bilheteiros e vendedores, por exemplo. E aí emerge a questão de que o documentário possa não ter se diluído demais nesses retratos, quando poderia, talvez, investir mais no perfil de Mônica. De toda forma, é mais um exemplo de produção do audiovisual cearense o qual, ao lado do pernambucano, sempre marca grande presença na Mostra de Tiradentes.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Até onde a vista alcança
por Ursula Rösele
O curta Até onde a vista alcança trabalha visualmente numa vertente simbólica, evidenciando, através dela, uma limitação que é própria do cinema, uma vez que o enquadramento é um mecanismo excludente por excelência, sendo uma de suas virtudes a capacidade de dizer dentro do quadro não somente o que cabe a ele, mas – em algumas narrativas que crescem e de certa forma necessitam disso, obviamente – possibilitar sua transcendência a partir da maneira que estimula o imaginário.
A vista aqui não se reduz ao olhar, à qualidade da visão propriamente dita, mas é o olhar da câmera, a “vista”, paisagem que ela pode abrigar e a imensidão de um mundo estranho para aqueles personagens. Uma associação quilombola das regiões Sambaquim e Riachão do Sambaquim se reúne para um bingo cujos vencedores irão de ônibus ver a praia. Premissa talvez simples, mas acentuada por duas questões: aquelas pessoas (muitas delas já idosas) nunca viram o mar, e um dos objetivos do filme parece ser não somente o de registrar esses momentos, mas observá-los na medida da limitação já comentada acima. A câmera (como observado pelo crítico Eduardo Valente) não consegue filmar o mar inteiro, assim como nós não conseguimos enxergá-lo em toda sua dimensão e completude.
Até onde a vista alcança, portanto, aceita essas limitações e se apropria delas de maneira delicada, indo não somente ao registro cinematográfico, como se permitindo abranger esse olhar para aqueles que provavelmente jamais verão o mar e continuarão em Sambaquim. O filme, as fotografias e os relatos permanecerão como instrumentos de continuidade desse imaginário perdido em um canto do Brasil, no qual resta a imaginação para transcender.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Stela do Patrocínio, a Mulher que Falava Coisas
por Nísio Teixeira
Dirigido por Márcio de Andrade, o filme fala sobre Stella, mulher internada por décadas em uma clínica no Rio de Janeiro. Sua visão de mundo é exposta pelos diretores da maneira direta e loquaz com que ela falava sobre coisas caras à vida, criação, morte e outros restos humanos. O depoimento somente em áudio conduz o filme, entremeado por algumas imagens da personagem, em fotografias inclusive, e outras imagens que procuram ilustrar o encadeamento randômico das idéias de Stella.
A visão de mundo de Stella inspirou livros, poesias e canções – uma delas encerra o filme com uma solução redentora, apresentando uma espécie de permanência da personagem ao mostrar vários daqueles que a acompanhavam em seus últimos anos, segurando um retrato de Stella.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Eu, Trilho
por Nísio Teixeira
No filme de Patrícia Francisco, a diretora fala e busca referências acerca de sua avó. Essa afetividade fica explícita na abordagem com que a diretora faz junto às entrevistadas e, principalmente, aos elementos que marcam o universo central da personagem, como os trens, a casa, a colcha de retalhos (afetividade que se explicita na delicadeza de alguns planos – como o da própria colcha, por exemplo).
Contudo, num comentário próximo àquele de O Canto Torto do Olho, parece que o universo da avó poderia ser mais profundamente explorado ao longo do filme. Pelo menos, fica a vontade desse mergulho, com mais elementos desse universo – o filme vai incluir ainda fotos e pequenos trechos de filmes antigos com a avó. No entanto, a opção da diretora foi por um desdobramento indireto, procurando ouvir senhoras e uma garota que falavam de suas vidas, em especial em seu universo doméstico e também no campo. Essa opção indireta, porém, pareceu conduzir a uma fuga do objeto central, focando mais a trajetória das senhoras e, com especial comoção, a da garota.
Outro pequeno detalhe deve ser reexaminado: a opção da diretora por um áudio que parece ser da mãe contando histórias da avó e que pontua como off vários planos da história, está, ao que parece, reproduzido de uma fonte indireta, como um telefone. O artificialismo dessa solução dá uma crueza desnecessária ao depoimento que, se fosse captado de maneira direta, talvez poderia reproduzir com mais leveza o comentário da mãe, agregando mais suavidade à carinhosa proposta do filme.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filmes Citados:
O Conto do Olho Torto (idem, 2008/Ramon Cavalcante)
Até onde a vista alcança (idem, 2007/Felipe Peres Calheiros)
Eu, Trilho (idem, 2008/Patrícia Francisco)