A Casa de Sandro

Casa de Sandro

por Gabriel Martins

 

A Casa de Sandro é um filme que se adere fielmente à sua proposta, como se pode perceber logo nos primeiros minutos, estes que guardam poucos planos dentro de si. Há uma idéia de contemplação clara, de observação da reação da casa – o belíssimo plano inicial onde vemos a rã cria imediatamente este pacto. Há também um risco inerente a este tipo de proposta, similar em parte à estética da Nova Escola de Berlim e a projetos nacionais como Sábado à Noite, Acidente, dentre outros. Ao se colocar em uma postura mais rigorosa de tempo e enquadramento, refletindo acerca do acaso, da noção do dispositivo e da idéia de beleza proveniente da simplicidade, também pode-se cair num vazio proveniente destas mesmas idéias. Se esta postura há um tempo já não se enquadra como algo totalmente novo, é preciso retrabalhar o sentido da própria idéia para que não se torne apenas mais um produto de série, algo que pressuponha qualidade exatamente por buscar um efeito oposto ao da repetição: a singularidade. A Casa de Sandro dança entre o abraço fiel a sua proposta, refletindo-a, e um excesso proveniente de certa redundância presente em alguns atos do filme, algo complexo de se avaliar.

 

Esta tal complexidade se dá pelo fato de que, de certa forma, a ordem primária da obra, seu jogo temporal, não sustenta por todo o tempo uma renovação que poderia ser interessante, principalmente se tratando de um longa-metragem. Ao mesmo tempo, a própria linearidade, no sentido de “anti-nuance”, identifica um tempo que é próprio da concepção do filme, registro que é evidenciado em vários momentos (a presença de equipe em quadro reforça este caráter, principalmente no interessante fechamento da obra). O que se deve pensar é até que ponto a discussão extra-filme, que endossa uma perspectiva de postura diante do cinema, pode nos cegar para o que realmente se encontra interno ao filme. Portanto, não é necessariamente óbvio pensar em A Casa de Sandro como um filme relativamente longo, que excede a extensão de algumas de suas idéias. Se há uso do tempo lento, da contemplação e da estaticidade, todas estas características já se provam em várias situações, sobrando alguns anexos que parecem desgastar, em parte, a própria proposta.

 

Mas A Casa de Sandro consegue uma idéia particular que o torna um filme instigante, relativa à questão da renovação colocada no princípio do texto. Ao fim do filme,  Sandro pega um quadro, a princípio já pronto, e pinta totalmente de branco. Esta imagem, aliada às passagens de nascer do sol (e a própria temporalidade dia/noite/dia...), traz uma perspectiva acerca da renovação do olhar e da efemeridade não só da vida, mas da própria arte. E neste ponto a reflexão sobre a câmera como dispositivo de captura, intrínseca a obras deste caráter, se reavalia como uma manifestação da fugacidade do tempo, daí a necessidade do registro como fixador da casa, daquela passagem. E nesta avaliação que o filme faz de si, ainda que em um estado latente (o filme utiliza a imagem da sobreposição de planos, Sandro muitas vezes “bloqueado” por algo presente entre ele e câmera), que A Casa de Sandro torna-se um filme importante, movendo-se por um rigor que, mesmo gerando algum excesso, tem um poder retroativo que alimenta sua existência.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes citados:

A Casa de Sandro (idem, 2009/ Gustavo Beck)

Sábado à Noite (idem, 2007/ Ivo Lopes Araújo)

Acidente (idem, 2006/ Cao Guimarães)

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