
Mar de Dentro
por Ursula Rösele
Um doce apanhado de histórias de pescadores de uma localidade é contado em imagens privilegiadas pela beleza sutil que emana dos espaços observados. O espaço, ali, parece estar intencionalmente à mercê daqueles relatos de tempos vividos, numa interessante relação do personagem e seu lugar. É um documentário que, independente de esconder conduções de seu diretor no extracampo não revelado, guarda uma sensação de frescor do instante em que as imagens foram captadas, indo no fluxo não só de seus relatos, mas do próprio mar, “vivo”, como diz um dos pescadores.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
A Busca de Lucrécio em Alexandria
por Gabriel Martins
Muito próximo do que ocorre em 33, de Kiko Goiffman, A Busca de Lucrécio em Alexandria traça um percurso de seu personagem em busca de suas origens. De forma perspicaz trata, como em 33, o percurso a esta busca como um elemento principal da obra, mais que o achado propriamente dito. O fim, o achar, torna-se apenas um ponto de partida para o registro de uma procura, a ação em si. Seguindo isto, fotos do processo (registradas pelo próprio Lucrécio, que é fotógrafo) registram esta união entre Pai protagonista e Filho cineasta em busca da imagem perdida desta família, motivo que os aproxima. O desencontro do final, o não achado, cai como um elemento que enfatiza a importância da trajetória, não importa aonde se chegue. Um filme não tão relevante visto como um todo, mas que traz questões internas pertinentes ao processo documental.
Engano
por Ursula Rösele
O curta Engano trabalha fortemente com a relação personagem-espaço utilizando-se de elementos um tanto desgastados na produção contemporânea: tela dividida e plano-seqüência. Talvez esse desgaste incomode nesse caso pelo seu uso que soa mais cool que efetivamente inventivo. Um rapaz liga por engano para uma garota, ambos residentes no Rio de Janeiro, ambos gaúchos. A conversa se estende, enquanto acompanhamos os dois em cada extremo da tela, atravessando a cidade; o rapaz no metrô, a moça a pé. O ritmo é conduzido pelo diálogo um tanto quanto desinteressante, num tom sutil de suspense rumo a um desfecho de desencontros, no qual se prenuncia uma possível junção das duas telas que acaba por não acontecer. Filme “redondo”, porém, evoca a tediosa sensação de mais do mesmo.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Depois das Nove
por Rafael Ciccarini
Um jovem vive com a sua avó e tem sua rotina alterada quando a mesma adoece. Vemos o rapaz em seu cotidiano típico de classe média urbana, enquanto a avó está sempre pronta a atender suas necessidades. A partir da não presença da avó, dá-se início a um processo de reconhecimento do mundo a partir de pequenos detalhes, antes despercebidos em seu dia a dia inevitavelmente autocentrado. O filme é conduzido com leveza e é feliz em construir, no microcosmo de um pequeno apartamento, um jogo de afetos e distanciamentos que nos fazer enxergar a relação dos dois com alguma nuance e interesse, ainda que o filme careça de expressividade suficiente para sair desse algo tedioso universo das pequenas sensibilidades urbanas, que vemos repetidas vezes em dezenas de curtas metragens.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Os Filmes que não Fiz*
por Mariana Souto
A partir de poucos filmes, já é possível perceber um estilo recorrente dos realizadores ligados à produtora Camisa Listrada e, agora, à Abuzza Filmes. Alguns traços unem nomes diferentes e, apesar das singularidades, vemos a marca do grupo.
Os filmes que não fiz parte de uma premissa interessante, que usa de forma criativa as próprias frustrações misturadas com as paixões e anseios de uma classe artística, fazendo uma metalinguagem autocrítica e perspicaz. Há dentro do filme vários gêneros em um, como a opção pelo formato de falso documentário para a narração do protagonista, misturado com episódios de sátiras a romances, dramas sobrenaturais, mas com o tom predominante de comédia. Nas atuações, sobretudo do frustrado diretor, interpretado pelo próprio Gilberto Scarpa, e do Zelvis, um jeito canastrão cativante. O filme, de alto padrão técnico, com fotografia e arte muito bem cuidadas, tem forte apelo popular e agrada o público, mas engancha em algumas piadas fracas e momentos de diálogo pouco inspirados.
Em comum com 5 frações de uma quase história, há um toque modernoso e dinâmico, que quase esbarra numa pretensão de esperteza. Contudo, o ritmo episódico e as transições rápidas aqui cabem melhor ao tom cômico de Os filmes que não fiz do que ao longa citado. O filme de Scarpa chega a ter características de prólogo, colagem, o que faz sentido quando se pensa que provavelmente há nele, de fato, fragmentos de idéias que surgiram em tempos diferentes, em contextos diversos. Sendo assim, o curta parece uma amarração de cacos e pérolas de arquivo, com embalagem vibrante e cores que saltam aos olhos – e desviam o olhar de algumas fraquezas.
*Texto escrito para o 10º Festival Internacional de Curtas
Calango Lengo, Morte e Vida sem Ver Água
por Ursula Rösele
A animação Calango Lengo vai na toada de desenhos como Pica-Pau e Papa-Léguas, com um gracioso diferencial, por regionalizar sua abordagem para além da citação literária. O calango luta contra a Morte-fome, representada por um boi morto que o persegue e é salvo por uma “Deusa” brasileira, negra, sem rosto. Filme simpático, mas nada além disso.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Filmes Citados:
Mar de Dentro (idem, 2008/Paschoal Samora)
A Busca de Lucrécio em Alexandria (idem, 2008/Patrício Salgado)
33 (idem, 2002/Kiko Goifman)
Engano (idem, 2008/Cavi Borges)
Depois das Nove (idem, 2008/Allan Ribeiro)
Os Filmes Que Não Fiz (idem, 2008/Gilberto Scarpa)
Calango Lengo, Morte e Vida sem Ver Água (idem, 2008/Fernando Miller)
5 frações de uma quase história (idem, 2007/ Armando Mendz, Cristiano Abud, Cris Azzi, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia)
Os filmes que não fiz (idem, 2008/ Gilberto Scarpa)