Curtas Digitais – Série: Ensaio 1

Nacos de Pele

 

por Ursula Rösele

 

Em Nacos de Pele, os sentimentos passam refletidos em suas imagens. A visão distorcida, sem foco, de uma câmera a observar momentos carinhosos de um casal, prenuncia uma não-continuidade daqueles instantes para dar lugar a um olhar saudoso de algo que não mais existe. O off masculino alterna-se no inglês e português (estratégia que por si só não diz muito para além de um exercício de estilo), enquanto letterings colam na tela em forma de uma espécie de carta de despedida. O redor, a terra, o ar, as paisagens, parecem todas reféns desse desarranjo da separação.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Lucy

por Rafael Ciccarini

 

Uma jovem sai com seu carro e câmera pelas ruas de Fortaleza. É interessante como uma proposta aparentemente ingênua e despretensiosa pode revelar, no fundo, uma articulação de dispositivos diversos que, ainda que diga respeito a uma pulsão bastante específica e algo em tese destituído de maior interesse, acaba por se tornar um bastante relevante comentário audiovisual sobre um determinado estado urbano contemporâneo.

 

Interessa, sobretudo, a forma com que as escolhas musicais se relacionam com as imagens e com a ação propriamente dita. Começando por Mrs. Robinson, o mais-que-clássico hit de Simon and Garfunkel, que, lúdico, dá uma textura leve, descontraída ao passeio: é como se o noturno da cidade, o trânsito, o urbano propriamente dito fosse suavizado pela melodia fechada e apaziguadora, o que é reforçado pela voz da própria personagem, cantarolando as conhecidas passagens da canção.

 

Em seguida temos Thom Yorke, e o que era conciliação passa a ser fragmento, o que era conforto passa a ter algo de instabilidade; a música (e a cidade, e o mundo) ganham nuances, quebras e texturas diferenciadas. É uma música que não se cantarola, não se acompanha. Resta ouvirmos e vermos, talvez tentando, ao mesmo tempo, buscar o fio de melodia da música de Yorke (que lá está), em busca, quiçá, de algo que explique ou amenize o mistério essencial do estar-na-cidade. Sem conclusão, Lucy é uma experiência do durante, do percurso, um passeio com a moça, suas escolhas (conscientes ou não) e seus dispositivos.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Subjetivo

por Gabriel Martins

 

Um título como este, “Subjetivo”, somado a outra cartela que diz “uma contemplação de Erasmo Alcântara”, cria certos juízos sobre o filme feito pelo próprio filme de caráter tão pretensioso que acabam provocando apenas o afastamento ao experimento feito. Bom lembrar que também não se trata exatamente de uma contemplação, dada a intervenção nas transições e outros efeitos da imagem. Se houvesse menor vontade de auto-importância e uma percepção de que a própria imagem se define (ou não, felizmente), talvez Subjetivo seria mais convidativo e menos um produto extraído de uma produção experimental em série, algo, ironicamente, nada subjetivo.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Alexandre Illich

por Gabriel Martins

 

É visível como Carlos Magno é um bom montador, ou melhor dizendo, um bom desenhista, artista plástico, designer, pintor. Ele traz novas perspectivas ao filme caseiro, retrabalhando o registro que já lhe é inerente – ele é o homem com uma câmera -, aplicando ao ato de filmar um elemento político de expressão, de contra-ataque. Carlos Magno cria, na montagem, uma lógica de plano e contraplano de uma mesma imagem de um entrevistado, como se a imagem conversasse com a própria imagem e entrasse em contradição. Elementos de sua vida estão presentes como sempre, a mesma proposta de colocar sua própria perspectiva em cheque que, aqui em Alexandre Illich, funciona bem como nas outras investidas.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Aeroporto

por Ursula Rösele

 

Instantes de um olhar improvisado pela espera do avião formam algumas imagens desses momentos de observação do trânsito de pessoas, do cotidiano de um aeroporto em funcionamento. O diretor faz um passeio discreto em busca de um filme-para-momentos-de-tédio. Como cinema, não instiga muito para além do exercício de observação.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

 

Let´s Take a Walk

por Ursula Rösele

 

No embalo de uma sessão quase toda conduzida por curtas experimentais, um pequeno videoclipe sem intenções comerciais representa um singelo passeio em uma tarde de sol. Há a sensação de imagens feitas em super-8, mesmo que não o sejam. Interessante uso da luz, num breve fluxo de sensações de um olhar subjetivo.  

 

 

Filmes Citados:

Nacos de Pele (idem, 2008/Leonardo Barcelos e Hélio Lauar)

Lucy (idem, 2008/Thaïs Dahas)

Subjetivo (idem, 2007/Erasmo Alcântara)

Alexandre Illich (idem, 2008/Carlos Magno Rodrigues)

Aeroporto (idem, 2008/Thiago Pedroso)

Let´s Take a Walk (idem, 2008/Thiago Pedroso e Hiro Ishikawa)

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