Acácio

Acacio

por Ursula Rösele

 

O longa Acácio, através do contato com os personagens que dão vida a ele, Acácio Videira e sua esposa Maria da Conceição, faz uma homenagem ao tempo e à memória. Ambos nasceram em Portugal e viveram por muitos anos no Brasil e em Angola (de onde Acácio possui um enorme acervo fotográfico e cenográfico). O filme dá vazão à idéia de cinema como instrumento de eternização da memória, manutenção do tempo através de imagens que falam e silenciam-se. É um processo até comum no “gênero” documentário, no qual um determinado universo ou pessoas possuem histórias que se perderiam facilmente no tempo, caso não se transformassem em filmes. Marília Rocha construiu um filme de muito cuidado e delicadeza mantendo o tom de acervo, mas dando seu olhar às particularidades desse casal, suas histórias, imagens de arquivo, sem deixar de valorizar os importantes instantes de silêncio e contemplação.

 

Ao aproximar-se do casal, Marília construiu – em parceria com as imagens de Acácio - um álbum falado, composto de uma espécie interessante de plano e contraplano em que a diretora prioriza o olhar de Maria da Conceição e seu marido sobre imagens às quais somos convidados a compartilhar somente após interessantes e muito pessoais ponderações dos dois. Nesse processo não somente de recuperação de uma memória quase perdida, Marília conduz sua narrativa de maneiras diferentes, ora usando imagens dos arquivos de Acácio, ora deixando-nos observar o casal por um longo tempo rememorando imagens que não vemos, para depois desfrutarmos delas num silêncio respeitoso e de uma forma interessante que nos permite construir nosso próprio ideário sobre elas.

 

Há também as imagens que Marília considera suas favoritas, sobre as quais ela não possui muita informação ou lembrança de todos os termos africanos envolvidos. Somos convidados a vê-las, novamente em silêncio, mas um tipo diferente dele. Sem conhecimento claro de suas origens e dos significados dos rituais que representam, temos em nossos olhos o filme de Marília e o nosso, num compartilhamento bastante carinhoso daquelas imagens que ela preferiu não nos dizer o que significam para ela.

 

Marília também partiu em busca de determinadas reconstruções imagéticas e sentimentais a partir das narrações de Acácio e Maria da Conceição, ao buscar a intensidade desse universo nos países previamente narrados por eles. Deixa-nos as imagens de Acácio, os momentos do casal e depois nos conduz aos lugares narrados através de sua própria visão e apreensão da história vivida nesses espaços.

 

Há alguns momentos em que o off do filme soa um pouco problemático, quando colocado para dar explicações que poderiam certamente ser sentidas e absorvidas somente pelas imagens. Um desses momentos se dá quando Acácio esculpe um guerreiro e Marília narra o ritual da tribo africana onde Acácio viveu 30 anos, no qual os idosos prestes a morrer são deixados no alto de uma montanha para lá ficarem até sua morte relembrando de toda a vida. Ao longo de todo o filme fica claro que Acácio vinha vivendo suas lembranças numa espécie de despedida de sua própria vida. Nesta cena, em um ponto do filme no qual os silêncios de Acácio e toda “reconstrução” de suas memórias por Marília já continham uma imensa expressividade desses sentimentos, a utilização do off  acaba por diminuir sua intensidade dramática e poética.

 

É bonita a idéia de tempo passado que o filme mantém, em seus silêncios, em sua contemplação solene, que não questiona nem busca completar os vazios deixados pela memória já falha de Acácio. É um cinema muito próprio, que busca priorizar as potências da imagem não somente de narrar, mas de reconstruir através do olhar do outro e de si todo um universo que passará dali para um espectador que – se atento – poderá ir além do retrato puro e simples.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filme Citado:

Acácio (idem, 2008/Marília Rocha)

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