Curtas Digitais - Série Especial: Retratos

por Gabriel Martins

 

Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico

 

Este documentário concentra-se em relatos de poeta João Cláudio Flávio Cordeiro da Silva, o “Miró”, que narra experiências de vida e declama poesias que tem como principal abordagem problemas sociais. A figura do poeta é realmente algo interessante, principalmente por ser representativa de uma manifestação marginal da arte, erguida fora da academia e guiada mais por experiências e observação que necessariamente alguma base teórica formal. Com isso, o olhar transcrito ao verbo por Miró descreve um estado primordial da arte como expressão de algo interno e caro ao artista, algo que não vê barreiras sociais ou raciais para o seu fim, vista sua manifestação livre através do verbo. Se um sorriso pode ser reprimido, é na poesia e na arte que Miró encontra um caminho para sua redenção; uma fuga, como a arte é, para a crueldade do mundo real.

 

Canosaone

 

Canosaone procura reverberar um sentimento de dar importância, com a imagem, ao que pode ser passado despercebido diariamente. De fato, o cinema serve como esta ferramenta de resgate às coisas simples, um alerta ao ser humano para olhar atentamente o mundo. Portanto, Canosaone procura explorar imagens e momentos que não sejam por si só extraordinários, destacando a possibilidade de poesia no cotidiano. Mas é exatamente nisso, no acompanhar do dia-a-dia de Fabiano Canosa, que é também abordado um estado de interesse pela vida alheia representativo da própria condição da mídia (o protagonista tem uma dose de fascinação pela imagem, no caso, de Elis Regina). E é parte da arte cinematográfica uma articulação que possibilita a um cineasta, mesmo tendo em mãos um material bruto aparentemente banal, construir um entorno poético ao documentado, dando-o uma profundidade que consegue, em momentos, ser captada por Canosaone.

 

Vida de Davi

 

Assistindo Vida de Davi, ocorre uma percepção da solidão como algo provocador de pontos de fuga, que podem gerar no ser humano um estado oposto ao recolhimento: a simpatia e comunicabilidade. É o que parece acontecer com Davi, um personagem que ao mesmo tempo em que é criado pelo ator Davi, funde-se com o próprio, assume-se como uma auto-recriação. Até certo ponto, pode-se dizer que são a mesma pessoa, sendo Davi uma criação de um ator que se interpreta para fugir de si mesmo, uma interpretação ininterrupta na vida que busca, na autoflagelação, aceitar a própria condição em que se encontra. Assumir-se como um “fodido”, portanto, parece ser uma maneira de se perdoar. Psicologia à parte, a construção verborrágica de A Vida de Davi, por mais simples e indutora que seja, reflete um estado emocional que ao mesmo tempo em que questiona a própria origem da manifestação e sua autenticidade, entrega ao personagem a essência do filme, e o que potencialmente está escondido por trás de todo um discurso.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes citados:

Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico (idem, 2008/ Wilson Freire)

Canosaone (idem, 2008/ Felipe Gamarano Barbosa)

Vida a Davi (idem, 2009/ Fernando Rocha) 

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