A concepção

concepcao

por Gabriel Martins

 

A Concepção é um filme que me provoca uma aproximação que vai além da simplicidade de um “gosto” ou “não gosto”, impedindo esta classificação e posicionamento de forma evidente. Há, como o final de Subterrâneos indica (o personagem do primeiro filme de José Eduardo Belmonte termina escrevendo um roteiro que, ao que parece, seria o de A concepção), uma continuidade de certas idéias, uma representação da percepção adquirida pelo personagem de Murilo Grossi que, no segundo filme, passa a ser evidenciada. Trata-se de um vazio alimentado por uma geração que encontra no hedonismo e na negação da identidade uma maneira de se colocar superior a padrões sociais convencionais (bom emprego, estabilidade, monogamia e etc).

 

O que mais prejudica o filme de Belmonte é a maneira como opta por certa estilização que nem sempre corresponde à discussão, rendendo-se a excessos. De toda forma, é importante salientar como a fragmentação em muitas vezes puramente estilística funciona melhor que o último filme de Belmonte, Se nada mais der certo. Na soma, estas opções acabam resultando em uma maneira de filmar relativamente já desgastada e óbvia frente à temática (ver os irmãos Trainspotting e Requiém Para um Sonho), mas que, ainda assim, tende a dar um ritmo interessante à história – assim como nos outros filmes citados.

 

O que a obra de Belmonte tem de mais forte é um distanciamento possível entre o que está explícito em tela e o que está presente em torno do filme, um comentário que não é necessariamente feito internamente (Belmonte conversa através de seus personagens, usa constantemente falas em off neste e nos seus outros filmes que colocam pontos de vista susceptíveis a questionamento), mas que é jogado ao espectador através da observação dos acontecimentos, do testemunho da falência de uma ideologia.


Na proposta da negação da identidade e tentativa de ser uma pessoa nova cada dia, acaba-se não sendo ninguém, uma vazio que encerra em si mesmo e que se constitui apenas como um momento. A concepção é um curioso retrato sobre uma geração exatamente desta lógica do momento, de viver intensamente alienando-se para outras questões do mundo em uma filosofia criada para favorecer uma espécie de libertação através de sexo e drogas. O filme de Belmonte, digo novamente, é um filme peculiar que, visto e revisto, não me permite um posicionamento tão somente na esfera do gosto/não gosto. Talvez, perceber como um filme pode criar este desequilíbrio e questionamento é também entender que ele pode ser no mínimo bastante instigante.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes citados:

A concepção (idem, 2005/ José Eduardo Belmonte)

Trainspotting (Trainspotting, 1996/ Danny Boyle)

Requiém para um sonho (Requiem for a dream, 2000/ Darren Aronofsky)

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