Filmefobia

Filmefobia

por Ursula Rösele

 

Filmefobia, para além de uma experiência denotada por seu título, é um filme que transita em torno de determinadas negativas. É um “não-filme” (falso documentário/ficção sendo realizado dentro do filme que vemos), com um “não-diretor” interagindo com quase “não-pessoas” (não temos nenhuma informação acerca delas, a não ser que serão expostas às suas fobias). Seu filme parece distanciado da própria idéia de identificação, seja ela de sua equipe com as conseqüências (e decorreres) da obra, ou de como esse emaranhado de situações não explicadas irão chegar ao espectador. Há uma insegurança em seu entorno, uma vez que o trânsito pelos seus estratagemas denota uma grande incerteza em relação aos seus reais objetivos. Sua premissa difusa e a forma com a qual ela é pontuada ao longo da projeção coloca uma questão que suscita reflexões várias, o que por si só é um mérito do filme: “a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia”.

 

O estudioso de cinema Jean-Claude Bernardet interpreta Jean-Claude, um diretor em busca da imagem perfeita (ou de um “algo mais”, sempre em suspensão). Conceito um tanto quanto deturpado, pois em seu transcorrer discorre-se sobre a verdade na/da imagem, uma espécie de verossimilhança incorruptível, capaz de ser atingida somente quando pessoas são colocadas diante de seus medos mais profundos. Verdade esta contestada por ele próprio ao dizer, um tempo depois, que se pode encontrá-la na interpretação de uma fobia por alguém que não a possui. O filme, então, cria diversas teses acerca dessas instâncias psíquicas que por si só gerariam reações “reais”. Difícil dizer ser ele um filme que transita propositalmente entre o real e a ficção, ou que sequer se preocupa firmemente em experimentar com o dispositivo dentro desses preceitos. Kiko Goifman parece imerso em seu filme-laboratório sem muito interesse de chegar a idéias conclusivas acerca de seus experimentos ou de dividi-las com aqueles expostos às suas imagens.

 

Filmefobia parece um filme egoísta. Sua composição não se abre ao contato com o espectador ou seu exterior, dando a impressão de fornecer uma estrutura tão fechada em si própria, suas tentativas e erros, que parece encarcerado em seus enquadramentos, ainda que traga através dos questionamentos de Jean-Claude variadas absorções do que já vimos, iremos ver e jamais saberemos. Certezas não são o objetivo do filme, assim como também não é o encontro com a verdade. Essa idéia da imagem verdadeira, do depoimento verossímil, do documentário como fornecedor de conclusões absolutas, tem se diluído há muitos anos e principalmente encontrado alguns interessantes experimentos em filmes contemporâneos, como Santiago e Jogo de Cena, de João Moreira Salles e Eduardo Coutinho, respectivamente.

 

Há toda uma discussão dentro do suposto filme sendo feito ali, como se em sua confusão de expectativas e interesses pudesse mascarar-se através desse “não-filme”. A inserção de um elemento ficcional (uma construção fílmica dentro de uma realização verdadeira) distancia da idéia de realidade buscada. Uma vez que se joga com os próprios dispositivos apresentados, como encontrar um ponto ali que possa ser absorvido como “real”? Perguntas que ficam: qual é de fato a busca do cinema? Tornar (falsear de forma convincente) real a representação? Expor como representação o jamais verdadeiro, palpável? Pode-se afirmar algo no quadro sem revelar seu extracampo? Seria o interesse de Filmefobia o encontro com o ápice do irreal, do confrontamento com os pressupostos do documentário?

 

O personagem-condutor da narrativa, Jean-Claude, interage com seu filme e o de Goifman aos poucos, adentrando sua estrutura a partir de opiniões, diálogos com a equipe e silêncios em seus momentos íntimos, que não sabemos ser verdadeiros ou também interpretações. Goifman é uma das cobaias de seu próprio filme, que vai tomando rumos tão difusos que podemos facilmente nos perder a ponto de não mais refletirmos sobre quem de fato comanda a ação e seu findar. A fobia dos que representam (ou não) é o de menos no filme de Goifman. Talvez este filme seja sobre excentricidades, talvez sobre a inabilidade de aceitar os limites do cinema, talvez uma fobia do próprio fazer cinematográfico. Se em Santiago temos revelações de um diretor (narradas por seu irmão) acerca de uma sensação de fracasso ao lidar com os propósitos do documentário e em Jogo de Cena somos tragados por depoimentos intensos de mulheres que os viveram ou não (mas os conduzem de maneira a esquecermos os limiares real/ficção), em Filmefobia não há sequer espaço para que possamos nos nortear.

 

Entramos no jogo sem podermos comandá-lo, compreendê-lo, dissecá-lo em nossos próprios ideários. De certa forma, Filmefobia não nos coloca diante de medos que podem ser nossos ou trazer-nos reflexões acerca do que poderia nos desestabilizar. O sadismo da experiência não está na equipe “torturando” personagens dispostos a ela, mas talvez esteja na sensação de que nosso voyeurismo é exposto em formato de tortura. Não comandamos a ação, mas nos dispomos a ela com curiosidade, morbidez e até riso. E o mais estranho da experiência é que o resultado daquelas imagens não é contundente, assustador, mas impressão de experiência estética e não sensorial. Assim como Coutinho expõe seu dispositivo aparecendo, interagindo e colocando a câmera em ação, Filmefobia não diz nada concreto, mas constrói suas engenhocas-fóbicas e monta o cenário em nossa frente. Desconstrói, portanto, as possíveis sensações de descontrole em imagens frias, que dispõem seus objetos de forma tão esquemática que se o interesse é confrontar medos, a experiência se dilui em si própria. Fica o filme pelo filme, a imagem pela imagem, o cinema pelo quase “não-cinema”.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filmes Citados:

Jogo de Cena (idem, 2007/Eduardo Coutinho)

Santiago (idem, 2007/João Moreira Salles)

Filmefobia (idem, 2008/Kiko Goifman)

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