Subterrâneos

Subterraneos

por Rafael Ciccarini

 

Subterrâneos é o primeiro e já mítico filme de José Eduardo Belmonte. De alguma forma, segundo o próprio diretor, ele abre o que viria a ser uma tetralogia, sendo seguido por A Concepção, Meu Mundo em Perigo e finalmente Se Nada Mais Der Certo, seu mais recente trabalho. Belmonte é nome decisivo do cinema brasileiro contemporâneo, tanto pela expressividade de seus filmes quanto pelo fato de que talvez seja quem mais filmou em período bastante curto: para os padrões brasileiros, quatro longas em um espaço de seis, sete anos não é nada menos que um fenômeno.

 

O filme se passa inteiro no CONIC, em Brasíia, uma grande edificação originalmente concebida para ser um shopping center, mas que acabou se tornando um gigantesco e disforme centro comercial, uma espécie de símbolo de Brasília em sua intrincada lógica de paradoxos. Aliás, Subterrâneos é, antes de tudo, um filme sobre o homem e a cidade, tema profunda e historicamente cinematográfico, que aqui ganha contornos de um determinado Brasil contemporâneo urbano e alguns de seus impasses e impossibilidades.

 

Se é apontamento comum o de que o cinema brasileiro “oficial” contemporâneo simplesmente vinha falhando ao corresponder esteticamente a uma série de questões que pareciam explodir nos espaços urbanos, Subterrâneos, a partir da saga de Breno, um sindicalista em aguda crise existencial, vai começar a fazê-las explodir (o que seria continuado em seus filmes posteriores).  Colapsado, ele sai numa jornada frenética a fim de escrever um livro sobre o local; “sou escritor”, diz àqueles com quem interage. Aqui, a total integração entre o personagem e seu espaço se coloca de maneira clara: é como se ao tentar entender aquele lugar ele também pudesse entender a si próprio, ou, dito de outra forma, lhe é impossível saber mesmo quem é ele se o que o cerca lhe escapa por completo: sendo ou não escritor, lhe é essencial “escrever”.

 

Não por acaso o filme começa num prólogo frenético, com um narrador em off escancarando seu colapso, enquanto a câmera rápida e inquieta varre os corredores por onde o filme se desenvolverá. O off apresenta o personagem, a imagem, o espaço. Ambos irremediavelmente fundidos. Inevitável não remeter a Manhattan, de Woody Allen e sua abertura, que brilhantemente morfoseia personagem e espaço, dando tanto o tom quanto a lógica de cisão urbana e de contradição que permeará o filme. Em Subterrâneos, em poucos minutos, estamos a par de seu universo, suas questões centrais e devidamente seduzidos com a pujança e vivacidade das imagens que vemos na tela.

 

“Todo mundo é puta, você é puta”, diz Breno ao cineasta italiano que também habita o cotidiano do prédio (e, sintomaticamente, também realiza um filme sobre o espaço), naquela que talvez seja a grande cena do filme, pela mistura de força, instabilidade, humor e desespero, que, aliás, está presente em boa parte do filme. Os personagens, seja o principal, seja aqueles que o cercam, sobretudo a impagável moça em surto, parecem estar sempre no semi-tom da sanidade, criando uma espécie de discurso torto, mas intenso, provocador. E aí está um componente que será central no cinema de Belmonte: a não-aceitação de um estado de coisas, no fundo, tão ou mais perturbado que aquele que constrói em seus filmes. É como se dissesse: “como não questionar?” É Breno, incapaz de compreender a placitude do engraxate, discursando contra os “filhos da puta dos burgueses” cujos sapatos engraxa cotidianamente.

 

Belmonte levará suas inquietações e questões para outros patamares de experiência estética, eventualmente com maior e menor impacto, diga-se, mas poucas vezes como tamanha felicidade e frescor. Subterrâneos, enfim, é dos grandes filmes do cinema brasileiro contemporâneo, que infelizmente permanece praticamente fora do alcance de boa parte do público, restrito a eventuais exibições. Que isso mude o quanto antes, porque se trata de um filme expressivo e relevante demais para se tornar mero objeto de fetichismo cult.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes Citados:

Manhattan (idem, 1979/Woody Allen)

Subterrâneos (idem, 2004/José Eduardo Belmonte)

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