
Vila Mariquinhas: a Memória no Bordado
por Ursula Rösele
Vila Mariquinhas: a Memória no Bordado é um documentário que se insere em determinados padrões de abordagem que, apesar de não correr muitos riscos, possui uma cadência interessante. Tem-se a sensação de um tema que surgiu a partir da interação da diretora com o universo e não de um argumento anterior ao encontro com o lugar retratado. Dez mulheres aprendem bordado e costuram suas memórias em colchas de retalho. O filme trafega em terrenos seguros (sem ousar estética ou narrativamente), com imagens do local, dos trabalhos desenvolvidos e depoimentos dessas mulheres acerca de suas experiências. O bordado ali é usado como o maior representante daquelas memórias e o cinema como instrumento eternizador das mesmas.
Apesar de sua estrutura “redonda”, a diretora soube como costurar os momentos captados de modo a dar fluência e extrair daquelas mulheres simpáticos momentos que sugerem uma espontaneidade que certamente contribui para sua leveza.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
De volta à Terra Boa
por Gabriel Martins
Estruturado como documentário tradicional, De volta à Terra Boa narra a história dos índios Panará, que relatam sua saga entre os anos 1970 e 1990. Após conflitos com os Kayapó e com a presença do homem branco (aviões, doenças e etc), eles aceitam a oferta dos Irmãos Villas Boas para se transferirem para o Parque do Xingu, retornando à sua terro original apenas em 95. O mais interessante do curta é a forma como esta integração entre realizador e indígena provocada pela própria estrutura de oficina – o projeto é fruto das oficinas Vídeo nas Aldeias – provoca uma interação que ao mesmo tempo em que expõe certo desconforto entre os indígenas e o dispositivo, parece os instigar ao depoimento. Neste filme, é o próprio Panará, com sua linguagem e expressão própria, que conta a história, sendo o documentarista uma espécie de observador do processo de desenvolvimento do relato. Há também intervenção mais clara, como no processo de pesquisa e memória, destacado pelas imagens do arquivo que ajudam tanto na construção da história como na própria lógica de confronto entre registros e perspectivas (as imagens de arquivo estruturam-se como registros de caráter mais funcional, enquanto as imagens captadas pelo próprio documentário destacam uma possibilidade de olhar mais poético). Por fim, De volta à Terra Boa consegue trazer um ponto de vista particular através do ato do relatar, discutindo, latente à construção narrativa, a própria arte de se registrar a História.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Favela 20x30
por Gabriel Martins
O ato de filmar, mesmo se ausentando de algum comentário específico e claro, pode ser um ato político? Mais que isso, estabelecer um ponto de vista ou vários pontos de vista, mesmo que meramente visuais, é por si só um comentário específico? Um ponto de vista visual, um posicionamento de câmera, é imediatamente um ponto de vista autoral, uma maneira de olhar a vida? Favela 20x30 faz rever idéias sobre o próprio cinema, e a maneira como definições podem ser feitas simplesmente por representar uma opção de registro que identifica a ferramenta cinematográfica em seu estado mais puro e funcional de, exatamente, registro. Várias imagens registrando a favela preservam um distanciamento, a contemplação, que parece ser fundamental para que seja evidenciada a ação, o fato. E o som, não necessariamente vinculado à imagem, nos propõe um movimento, uma viagem, um passeio pela cultura e expressão local. Juntos, imagem e som propõem um novo olhar ao cenário, uma evocação a uma observação livre de julgamentos, de preconceitos, uma observação mais pura. E, nesta hora, independente do distanciamento – e em momentos devido a ele – filmar definitivamente é um ato político.
*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Priara Jo Depois do Ovo, a Guerra
por Mariana Souto
Ao acompanhar o que parece ser uma manhã ou tarde na vida de jovens índios, Priara Jo Depois do Ovo, a Guerra consegue captar e transmitir um espírito de aventura juvenil. O timing do documentário e até mesmo o arranjo espacial entre os garotos provocam um efeito cômico. A posição da câmera, parada em um ponto para registrar a passagem dos índios, um a um (o último deles geralmente mais demorado), para logo repetir o mesmo recurso reflete um sentido de alegria de percurso, de trajetória que interessa mais pela preparação, pelo prazer do caminhar – e assim o curta gasta a maior parte do seu tempo, em oposição aos curtos minutos dedicados ao “combate”.
Ao mesmo tempo em que se preparam para o que parece ser um conflito, uma disputa com outra tribo, desfrutam uma atividade de grupo, a companhia da turma, numa preparação divertida que, por fim, se assume brincadeira. Mas os meninos não brincam apenas com a pintura dos corpos, as armas, os cortes de cabelo. Brincam também com o novo artefato, a câmera. A novidade parece se inserir no passatempo, criando um jogo ao mesmo tempo de cumplicidade e exibicionismo com as crianças. Em vários momentos, percebemos que os pequenos índios fazem graça e olham para a câmera, como que para checar se ela viu aquilo, se está compartilhando do episódio. Parte do exibicionismo dos garotos filmados talvez se deva à presença da câmera naquele ambiente – a todo momento eles fazem ameaças “quando encontrá-los eu vou...” e tentam demonstrar bravura. De outro lado, suas constantes risadas têm efeito contagiante. As ameaças e a agressividade se misturam com a alegria e o lúdico, numa representação da própria adolescência e seu preparo para a vida adulta.
Filmes Citados:
Vila Mariquinhas: a Memória no Bordado (idem, 2007/Flávia Craveiro)
Favela 20 x 30 (idem, 2008/Júlio Pecly)
De Volta à Terra Boa (idem, 2008/Vincent Carelli e Marí Corrêa)
Priara Jo Depois do Ovo, a Guerra (idem, 2008/Komoi Panará)