Favela On Blast, de Leandro HBL e Wesley Pentz

João Toledo

Com incrível adesão popular, o filme de Leandro HBL e Wesley Pentz faz algo como uma genealogia do Funk carioca, imergindo em seu universo em busca de tudo o que ele puder dar; suas origens, seus ritmos, suas misturas, sua posição ante a sociedade, sua realidade, sua força junto à comunidade, sua mitologia.

O filme se inicia nessa esfera mitológica, observando de longe ou via fragmentos o universo paralelo que é um baile funk, entregue a uma representação imagética que tenta traduzir o ritmo eletrônico vertiginoso, recheado de batidas, e um pouco do mal gosto, da roupa brega, do excesso. Ao longo do filme, muitas das músicas são ilustradas por mulheres rebolando – uma compreensão de que a expressão do corpo é fundamental para organizar e retratar a anatomia dessa realidade. O movimento do gesto e da dança ali é central, a forma como todos os envolvidos se travestem de personagens e se entregam aos ritmos do tambor eletrônico como que entregues a um ritual tribal-urbano, uma espécie de transe de sublimação, o que não deixa de ser verdade.

O filme foge de estruturações narrativas complexas, foge de analogias ou reflexões próprias acerca daquele universo – ele deixa que o espaço e seus personagens falem por si só. Distancia-se também de processos metalingüísticos de explicitação do aparato ou de incorporação do diretor como personagem. Ele se guia pelos entrevistados, pelas figuras expressivas do Funk e pelo que têm a dizer; não interfere, não cria contrastes, não explicita diferenças, não ressalta mediocridade ou pobreza. Nesse sentido, o filme é muito competente, pois tenta compreender aquele universo tal como é, criar um retrato mais ou menos acertado dessa realidade, e todos os sentidos que se criam são conseqüências de uma atenção para o que têm a dizer aqueles homens e mulheres de rude poesia.

Mas esse mundo do Funk, retratado apenas do ângulo de quem faz, cria um estado de adesão absoluta ao poder e importância dessa manifestação que, em determinados momentos, pode gerar distorções na realidade buscada; não se relativiza nenhuma das verdades expostas, nem mesmo em função de outras manifestações artísticas também importantes. Ao final, cria-se inevitavelmente uma ode ao Funk que culmina no inevitável louvor do público, que acha bonito ver humanizados aqueles seres maltratados de uma realidade brasileira resvaladiça.

 

Filmes citados:

Favela On Blast (Idem, 2008/Leandro HBL, Wesley Pentz)

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