Competição dia 3: Curtas-metragens e Siri-Ará, de Rosemberg Cariry

por Marcelo Miranda

Brasília (Título Provisório), de J. Procópio (DF) – Curta 35mm

Curta engraçadinho dos mais safados, usa a brincadeira da metalinguagem pela enésima vez como se estivesse inventando a roda. O filme é calcado em piadinhas cheias de obviedades e preconceitos (incluindo referências maldosas ao estado de Goiás e a participação de um travesti pela mera razão de ser um travesti com trejeitos supostamente engraçados), em “experimentos” de linguagem que tentam mesclar formas variadas de narração e numa irritante insistência em não terminar, criando uma gracinha atrás da outra, procedimento que parece menos querer desenvolver as (não) propostas do filme a justificar a própria existência deste trabalho como uma brincadeirinha de um grupo de amigos que acreditam estar sendo muito criativos ao criticar a cidade onde vivem (Brasília) e tudo que ela tem de problemática – mesmo que o deboche seja à base de um humor rasteiro de boteco (por vezes num caso literal, visto que boa parte do filme se passa num estabelecimento do tipo), referências gratuitas ao mundo pop e, claro, a idéia da piadinha metalingüística de filme dentro de outro filme. Passo.

 

A Arquitetura do Corpo, de Marcos Pimentel (MG) – Curta 35mm

Realizado por um diretor de Juiz de Fora (zona da mata mineira) com estudos em Cuba e na Alemanha, o filme reflete à risca a forma de trabalhar do próprio Pimentel: discrição, observação, pouca intervenção, curiosidade. Tudo isso está na tela e é bastante a cara deste diretor pouco comentado nos circuitos de festivais brasileiros – esse lado algo “anônimo” deve-se muito ao jeito ultra-mineiro de Pimentel agir dentro da arte em que se expressa. Por sorte (e privilégio), já pude tomar contato com quase toda a obra de curta-metragem de Pimentel, filmes sempre delicados e certeiros como O Maior Espetáculo da Terra, Ruminantes, Nada com Ninguém e Biografia do Tempo. Em todos, há a câmera no ângulo inusitado para captar o não-inusitado. O mesmo acontece aqui, num projeto pequeno em que o cineasta busca acompanhar os movimentos dos corpos de dançarinas de balé cujo sonho, estampado em seus rostos, é o de brilhar no palco. Pimentel se recusa a mostrar o palco e prefere ficar na coxia, no tablado de ensaio, registrando pés, braços, feridas, a busca pela concretização de vontades. Também discretamente, ele inicia uma narrativa dentro do documentário, ao seguir um grupo de garotas prestes a se apresentar. O filme ganha em tensão sem uma única palavra. Periga cair na explicitação dos sentimentos até então exibidos somente pelos movimentos, mas, bem ao estilo de Pimentel, segue firme numa objetividade que, por mais distanciada possa aparentar, tenha chances de ser a única possível de se fazer justiça aos personagens documentados.

 

Siri-Ará, de Rosemberg Cariry (CE) – Longa 35mm

No documentário Crítico, de Kleber Mendonça Filho, o cineasta (e crítico) Eduardo Valente dá um depoimento sobre o fato de ter a liberdade de não escrever sobre determinado filme quando não tem absolutamente nada a dizer. É mais ou menos esta a sensação deste polvo diante do novo trabalho do cearense Cariry: a quase total falta de palavras para desenvolver a respeito do filme. Não é preguiça, não é desconhecimento, não é má vontade, nem  pedantismo. Em seu obsessivo auto-centrismo, na ânsia por se expressar através do simbolismo e das figurações mais aprofundadamente fincadas em referências, conceitos e ideologias advindas de uma vontade de falar sobre a história da formação do país através de arquétipos da cultura popular, Cariry fez um filme indecifrável de quase completa impossibilidade de imersão.

Claro, isso não deveria ser impedimento para nada. Afinal, “filmes indecifráveis” fazem parte da cultura cinematográfica – e não o são O Ano Passado em Marienbad, 2001 – Uma Odisséia no Espaço, vários de Julio Bressane e David Lynch? A questão, aqui, é que, diferente de cineastas que pensam o cinema não apenas como exposição de idéias particulares, mas também como experiência visual, estética e (no caso de muitos) narrativa, Siri-Ará gira em torno de si mesmo sem se ater a criar alguma ambientação ou atmosfera que vá mais longe do que a vontade louca de representar seus mitos através das apresentações do reisado e da banda de pífanos, ambos cernes do filme e representações barrocas e simbólicas dos conflitos sangrentos que foram marcos fundadores do estado do Ceará, no século XVII.

Tudo o que Cariry quer demonstrar está na tela, mas não está na imagem. Dono de vasta cultura sobre história, filosofia e manifestações populares do nordeste, o diretor busca lançar todo o caldeirão de interligações na tentativa de, ao fim, fazer fechar uma tese que, descrita, é de um simplismo e ingenuidade imensos: o Brasil (especificamente o Ceará) só existe porque milhares de pessoas foram mortas na guerra de ocupação de terras que foram características dos séculos passados. Numa montagem quase infantil, o filme mostra um dos grupos dissecando um homem e dando sua carne para outros comerem – e, no corte seguinte, vemos a cidade, hoje, atual, já desenvolvida, cheia de gente.

É muito pouco para um cinema de pretensões incrivelmente maiores do que como se apresenta. Rosemberg Cariry termina por fazer um “filme de workshop”: ouvir o diretor falar sobre o projeto e revelar as mais aprofundadas relações, citações, referências, metáforas e metonímias torna-se mais interessante e culturalmente construtivo do que a experiência de vislumbrá-lo numa sala de exibição.

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