Competição dia 1: Curtas-metragens e O Milagre de Santa Luzia, de Sérgio Roizenblit

 

por Marcelo Miranda

Depois da comoção e perturbação causadas pela exibição de S. Bernardo, de Leon Hirszman, o Festival de Brasília entra em seu ritmo normal. A primeira noite de competição, na quarta-feira dia 19 de novembro, exibiu os seguintes filmes:

 

A Mulher Biônica, de Armando Praça (CE) – curta 35mm

Os primeiros minutos são marcados pelo despojamento total – da câmera, das atrizes em cena, dos diálogos, da movimentação dos corpos. Um grupo de mulheres conversa numa casa, sem qualquer tipo de freio ou limitação verbal, falando de tudo e de todos. A sensação é de que o curta seguirá este rumo tão estranhamente desenvolvido ao longo de uns cinco minutos, mas logo mostra que a proposta é outra: radiografar o cotidiano de uma daquelas mulheres e suas variadas formas de convivência com outros (a vizinha bêbada que transa com seu sobrinho; a parceira de casa grávida), com o meio que a rodeia fora da moradia (a menina de rua) e consigo mesma (a busca pelo prazer numa sala de cinema). O diretor Armando Praça leva o filme com despojamento semelhante ao do começo, ainda que nunca com a mesma força – talvez porque, por mais “acaso” seja o caminhar da protagonista, sempre há a impressão de certo controle da parte do realizador, tornado “invisível” no início e depois surgindo como artífice do desenrolar da narrativa.

Que Cavação é Essa?, de Estevão Garcia e Luís Rocha Melo (RJ) – curta 35mm

A direção é de dois colegas da crítica, oriundos da Contracampo (e é possível ver outros compondo o elenco). Experiência bastante interessante a de assistir a este curta, fruto de uma explícita tomada de posição dos diretores em relação ao descaso na conservação de filmes antigos e realizados no Brasil. Moldado como dois falsos documentários (um seria as filmagens de um churrasco no começo do século e é caracterizado por momentos impagáveis; o outro, mais “tradicional”, ouve profissionais a respeito da necessidade de manter viva a memória audiovisual brasileira, no que a participação de Hernani Heffner, diretor da cinemateca do MAM no Rio, torna-se imprescindível), o curta se revela um discurso direto sobre seu assunto, ainda que por vias irônicas e debochadas – o que torna o posicionamento por vezes mais contundente: ri-se de uma situação calamitosa, ri-se da locução que, ao seu modo engraçadinho, fala de verdades absolutamente preocupantes. Ri-se do sem-graça, e justamente por isso Que Cavação é Essa? pode ter o poder (ainda que pequeno) de conscientização. Provocar tal sentimento sem se apresentar meramente panfletário é um feito e tanto.

O Milagre de Santa Luzia, de Sérgio Roizenblit (SP) – longa 35mm

O primeiro concorrente da competitiva de longas deve ter sido programado para o primeiro dia já de caso pensado. Dificilmente algum outro filme deste ano terá a leveza, o jeito maroto, a simpatia e o carisma deste documentário cujo tema é a sanfona – mas, como gosta de frisar seu diretor, “é um filme sobre o Brasil real”. Não que tudo isso o torne um trabalho sem problemas – eles existem, ainda que não sejam tantos, ao menos numa primeira visão. Mas, assim como acontecera com O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho (competidor no festival em 2006), é difícil se ater a defeitos secundários quando o produto apresentado na tela soa tão agradável, como é o caso aqui.

Roizenblit corria naturalmente o risco de cair naquele jeitão de filme didático sobre cultura popular, mas logo na primeira cena ele desmonta o temor: num longo plano, surge Dominguinhos, caminhando no meio de uma estrada enquanto toca sua sanfona. Ao redor, no quadro, céu azul e paisagens verdes; ao fundo, dois garotos divertem-se andando de bicicleta. Aqui, nesta imagem deliciosamente interminável, está a cartilha que vai reger o filme: Dominguinhos será o “guia” de uma jornada rumo a confins do Brasil onde a sanfona é instrumento fundamental à tradição. Do Pantanal ao Rio Grande do Sul, do nordeste a Minas Gerais e São Paulo, Roizenblit vai visitar diversos rincões em busca de histórias e músicas.

Em cada parada, o diretor deixa o acaso brotar (o grupo de vaqueiros entoando aboios em homenagem a Dominguinhos), permite que seus entrevistados pensem, reflitam, falem, parem e recomecem (a belíssima seqüência de Patativa do Assaré, que recita um poema de cinco minutos falando de Luiz Gonzaga), filma o que há de mais particular em cada lugar visitado (sem esconder o maravilhamento do olhar “estrangeiro”, mas nunca resvalando ao mero registro visual) e colhe instantes únicos (o sanfoneiro que canta New York, New York, de Frank Sinatra, num típico inglês-embromação).

O instrumento protagonista do filme – surgido com vários nomes, da tradicional sanfona ao hiper-regionalista gaita (como é chamado no Rio Grande do Sul) – é tratado como apêndice, prótese, um extra-corpo. “O que é ele sem a gaita? Só um ser humano...”, diz um dos sanfoneiros, referindo-se a um colega seu. Ter talento com a sanfona e transformá-la numa segunda voz faz o músico transcender, tornar-se poderoso, acima dos mortais, um deus privilegiado pelo talento e pela sonoridade.

Roizenblit acredita nessa noção e trata com carinho, cuidado e respeito cada um dos planos e cada um dos personagens. O Milagre de Santa Luzia, por conta dessa admiração do realizador pelo objeto, ganha em ritmo e importância para além da relevância documental. O valor do regionalismo aqui tratado se mescla à universalidade da sanfona como objeto musical e recebe do filme autêntica representação cinematográfica por uma câmera sempre apaixonada e disposta a ver e ouvir atentamente o que aqueles sons e aquelas vozes têm a dizer.

Filmes Citados:

A Mulher Biônica (idem, 2008/Armando Praça)

Que Cavação é Essa? (idem, 2008/Estevão Garcia e Luís Rocha Melo)

O Milagre de Santa Luzia (idem, 2008/Sérgio Roizenblit)

O Engenho de Zé Lins (idem, 2006/Vladimir Carvalho)

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.