
por Marcelo Miranda
No fim da sessão de S. Bernardo, exibido em cópia restaurada na abertura do Festival de Brasília, o comentário era de que este terceiro longa-metragem de Leon Hirszman (lançado em 1973) deveria estar dentro da competição para garantir de vez a qualidade da seleção este ano (o que, por outro lado, seria covardia com os demais). Brincadeiras à parte, o que se viu na tela do Teatro Cláudio Santoro foi uma sucessão de maravilhamentos visuais, narrativos e técnicos como raras vezes há com tamanho vigor em trabalhos tidos como “socialmente engajados” – principalmente no cinema do Brasil, que parece ter certo ranço ao lidar com temáticas espinhosas sobre exploração econômica, como se os cineastas trabalhassem a partir de uma certa “culpa da classe média” e esquecessem estar, acima de tudo, criando objetos supostamente artísticos.
No caso de S. Bernardo, sempre foi proposta assumida de Hirszman adaptar o romance homônimo de Graciliano Ramos não apenas pelo interesse do diretor no conteúdo da obra, mas pela oportunidade que ela traria de explorar cinematograficamente questões que o afligiam, em especial a alienação e o abuso do capitalismo. O filme, portanto, é resultado de um fascínio por uma obra perfeita e bem acabada (o livro) transformado em imagens e sons de forte poder hipnótico e estético. Hirszman consegue resolver a questão do cinema político tanto pela forma quanto pelo conteúdo, gerando desse embate (que deveria ser sempre saudável, mas não o é tanto como por vezes exalta-se por aí) uma verdadeira pepita de ouro, quase intocável em cada um de seus elementos.
Da câmera fixa ao rigor da direção, da interpretação agressiva e ao mesmo tempo serena de Othon Bastos (cuja expressividade facial, vocal e corporal, tão bem aproveitadas por Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, ganham aqui proporções perturbadoras) à utilização do som também como recurso de significação, da música experimental de Caetano Veloso ao trabalho de fotografia de Lauro Escorel (em que o claro e o escuro tornam-se formas de desenhar no espaço a silhueta ameaçadora do protagonista Paulo Honório, e também em que o enquadramento dos planos tenta muitas vezes fundir o personagem aos objetos que o rodeiam), da montagem de Eduardo Escorel (em seu ritmo particular que permite aos corpos transitarem de pontos distantes dentro do mesmo plano, e só cortar depois que esses mesmos corpos ganharam vida suficiente para poder transitar mais “livres” no espaço cênico) ao roteiro repleto de grandes frases retiradas diretamente do livro... Como não sair em êxtase e choque de um trabalho dessa envergadura?
S. Bernardo trata da questão social de uma forma bastante específica. Talvez seja um dos únicos filmes brasileiros em que se coloca a falência humana e os males da exploração econômica a partir do ponto de vista não de quem seja despossuído de bens, mas de quem os possui em excesso e quer sempre mais. De produções recentes, é possível lembrar de Sangue Negro, do americano Paul Thomas Anderson – mas apenas num sentido temático, já que os filmes trabalham em chaves muito distintas, ou mesmo radicalmente opostas, ainda que cheguem em pontos semelhantes (pensando aqui, enquanto escrevo, os finais são praticamente os mesmos – mas, onde entra o inventário de uma nação que se traveste de épico no filme de Anderson, está a reflexividade intimista de um homem diante da destruição que ele causou a si próprio e todos ao redor, no trabalho de Hirszman; se Anderson termina o filme num corte seco de seu personagem distanciado da câmera, Hirszman finaliza com um longo e exaustivo fade out a partir de um close no rosto de Othon Bastos – e estas opções fazem total diferença nas idéias que cada realizador busca transmitir).
O filme consegue ao mesmo tempo pulsar as noções comunistas/socialistas de seu autor (Hirszman sempre foi cineasta engajado na “causa”; o que o interessava como diretor era gerar reações ou mobilizações a partir dos filmes que fazia) e funcionar num sentido universal como peça autônoma de cinema. Antes das idéias, o conceito; antes da metáfora, a forma. S. Bernardo torna-se notável na medida em que se apresenta como grande cinema, como um receptáculo de ideologias e um transmissor de estilo, de beleza, de prazer com o que pode ser visto. É um filme doloroso sob todos os aspectos, mas nunca deixa de ser algo que se impõe como relevante social e artisticamente. Esta é a maior das políticas feitas no cinema de Leon Hirszman, percebida também em outros de seus filmes, como A Falecida e Eles não Usam Black Tie e aqui elevada à potência máxima: mais do que se aproveitar dos artifícios da ficção para nos convencer de uma realidade, o diretor se apropria da realidade, leva-a ao paroxismo e inevitavelmente retorna a ela – ou ao que mais lhe interessa nela – através do filtro da ficção. Mais não se pode querer. E para que, afinal?
Filmes Citados:
S. Bernardo (Idem, 1973/Leon Hirszman)
Deus e o Diabo na Terra do Sol (idem, 1964/Glauber Rocha)
O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (idem, 1968/Glauber Rocha)
A Falecida (idem, 1965/Leon Hirszman)
Eles Não Usam Blacktie (idem, 1981/Leon Hirszman)
Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007/Paul Thomas Anderson)