
por Marcelo Miranda
É o mais antigo evento de cinema do país, fundado em 1965 pelo então professor (e hoje lembrado e reverenciado como mítico crítico) Paulo Emílio Sales Gomes. No início, era chamado apenas de Semana do Cinema Brasileiro. Não demorou nem dois anos para se tornar o atual Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O ano de 2008 marca a sua 41ª edição – a conta dos anos parece não bater porque a ditadura proibiu sua realização em duas ocasiões.
Se o leitor de Filmes Polvo está acostumado a ler nossas extensas coberturas de mostras como Tiradentes, Ouro Preto, Festival de Curtas, Indie, Rio e São Paulo, entre outras, talvez vá estranhar a aparente escassez de textos que virão de Brasília, a serem escritos por este polvo. Acontece que, diferente de boa parte do que acontece em outros lugares, Brasília tem uma dinâmica particularmente modesta: em competição, impreterivelmente, apenas seis longas e doze curtas, numa programação de uma semana – logo, um longa e dois curtas por noite, fora sessão de abertura (este ano a cargo da cópia restaurada do fundamental S. Bernardo, de Leon Hirszman, lançado em 1973) e de encerramento (que será Lance Maior, de Silvio Back, datado de 1968).
O cotidiano do Festival de Brasília se sustenta a partir desta dinâmica. Diariamente às 20h30, o Cine Brasília (linda e poderosa sala de exibição da capital federal) torna-se espaço da apresentação dos filmes da noite, cujos realizadores (sempre presentes) recebem tratamento especial. Sobem ao palco antes da projeção, falam dos projetos (uns mais, outros menos), desejam a tradicional “boa sessão” e são normalmente aplaudidos com fervor e absoluta animação por parte das centenas de pessoas (a esmagadora maioria sendo estudantes da UnB) ali sentadas.
Durante as exibições, porém, surge o temor. Esse mesmo público antes tão respeitoso com os realizadores é capaz das mais variadas reações enquanto o filme se lança na tela ou, especialmente, depois. Os espectadores riem, choram, gritam, assustam-se, vaiam, aplaudem. O que é mais curioso é que todas essas reações – que criaram a aura de que Brasília tem a platéia mais politizada e ativa dentre os festivais brasileiros – quase sempre soam absolutamente naturais e condizentes com o que se vê. Não no sentido de estarem certos ou errados (aí vai depender de cada um), mas de saberem a hora “certa” de manifestar. Em Brasília, dificilmente você terá uma sessão tumultuada, bagunçada ou caótica. Mas terá, na maioria das vezes, emoções aflorando no escuro (e também durante os créditos), muitas delas calorosas, mas várias igualmente sem condescendência (o que provoca situações realmente embaraçosas em alguns casos, já que o diretor do filme ocasionalmente vaiado está no local).
Na manhã seguinte, no Hotel Nacional – sede oficial do festival, onde se hospedam todos os envolvidos (convidados, cineastas, jornalistas, críticos, organizadores), espaço irônica e maravilhosamente captado pela câmera de um inquieto Jairo Ferreira em Horror Palace Hotel –, promovem-se os debates a respeito dos curtas e do longa da noite anterior. A participação é aberta a qualquer interessado, mas raramente aparecem espectadores “comuns”, talvez por conta das notórias limitações geográficas de circulação em Brasília. Ainda assim, os debates tendem a ser acalorados, até porque inevitavelmente é a primeira vez em que aqueles filmes estarão sendo alvo de discussão (Brasília tem tradição de apenas exibir na competição trabalhos completamente inéditos), e as idéias vão surgindo e sendo lançadas ali, no momento, poucas horas depois de um primeiro contato com as obras. Em alguns casos um debate pode se transformar numa homilia (caso clássico de Batismo de Sangue há dois anos, em que a presença de Frei Betto dominou muito mais do que qualquer tentativa de discussão de cinema) ou numa pública troca de acusações a respeito do teor moral do filme (como foi com Evaldo Mocarzel, acuado sem muita piedade por conta de seu questionável Jardim Ângela, também em 2006), ou mesmo na temerosa destronação de algum jornalista com empáfia mais exaltada (no ano passado, Julio Bressane chamou um deles de “burro e ignorante”, ao ser questionado sobre algumas de suas escolhas para Cleópatra – que acabou se sagrando vencedor do festival).
Brasília também se caracteriza pelos seus fartos prêmios em dinheiro aos vencedores do Troféu Candango, o que faz com que muitos realizadores guardem seus filmes para tentar uma vaga no festival. Em 2008, o total será de R$ 505 mil, distribuídos em diversas categorias.
A 41ª edição, que começa neste dia 18 de novembro e segue até o dia 25, já se tornou especial – para mal ou para bem, ainda a ser conferido. É a primeira vez que a competição de Brasília é composta mais por documentários do que por ficções. Dos seis selecionados em longa, quatro são assumidamente documentais (Ñande Guarani, Tudo Isto me Parece um Sonho, O Milagre de Santa Luzia e À Margem do Lixo), um é totalmente ficção (Siri-Ará) e outro transita entre os dois pólos (FilmeFobia). O fato gerou uma série de especulações e conversas de bastidores – de que Brasília estaria sofrendo com a falta de filmes, já que boa parte deles teria ido para outros eventos, no caso, festivais em Paulínia, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo; de que a safra de final de ano estava ruim; de que vários potenciais trabalhos a ser exibidos (No Meu Lugar, de Eduardo Valente, e Augustas, de Francisco César Filho, por exemplo) não ficaram prontos a tempo ou não tiveram interesse em participar; de que a comissão de seleção precisou se ater aos documentários porque o que foi visto em ficção beirava o constrangedor; e por aí afora.
Fato é que Brasília 2008 surge aparentemente como um festival estranho. Nomes pouco familiarizados mesmo a quem freqüenta eventos similares estão competindo, filmes até então desconhecidos apareceram, a quantidade de documentários pode inibir a distribuição de troféus para melhor ator, atriz e direção de arte... Por outro lado, esses mesmos desafios a serem superados são também estímulos a se atentar para o que será visto ao longo da semana. Podem surgir os maiores lixos, podem aparecer grandes filmes, quiçá nascer alguma obra-prima. Aqui em Filmes Polvo você poderá conferir algumas impressões a respeito de tudo isso.
Confira abaixo os filmes do Festival de Brasília:
Longa de abertura
São Bernardo (1972), de Leon Hirszman
Longas em competição
À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel (SP)
FilmeFobia, de Kiko Goifmanm (SP)
Ñande Guarani (Nós Guarani), de André Luís da Cunha (DF)
O Milagre de Santa Luzia, de Sergio Roizenblit (SP)
Siri-Ará, de Rosemberg Cariry (CE)
Tudo Isto me Parece um Sonho, de Geraldo Sarno (RJ)
Curtas em competição
A Arquitetura do Corpo, de Marcos Pimentel (MG)
A Minha Maneira de Estar Sozinho, de Gustavo Galvão (DF)
A Mulher Biônica, de Armando Praça (CE)
Ana Beatriz, de Clarissa Cardoso (DF)
Brasília (Título Provisório), de J. Procópio (DF)
Cães, de Adler Paz e Moacyr Gramacho (BA)
Cidade Vazia, de Cássio Pereira dos Santos (DF)
Minami em Close-up, de Thiago Mendonça (SP)
Na Madrugada, de Duda Gorter (RJ)
Nº 27, de Marcelo Lordello (PE)
Que Cavação É Essa?, de Estevão Garcia e Luís Rocha Melo (RJ)
Superbarroco, de Renata Pinheiro (PE)
Confira os competidores em vídeo e 16mm e várias outras informações do festival no site www.festbrasilia.com.br .